ESPECIAL: 12 Coisas que você pode aprender sobre a História Mundial (e um pouco mais) nos Mangás - Parte 1

Diminuição da pobreza na China Medieval, o lado negro do Imperialismo e bigodes em abundância

Enquanto existem vários títulos de mangás e animes que abordam diferentes tópicos históricos (com vários níveis de precisão), muitas dessas obras são fictícias ou representações altamente ficcionalizadas dos eventos e épocas em que ocorreram.

 

No Japão, pelo mangá ser uma característica integral da cultura nacional, existe uma variedade de mangás educacionais que mostra às crianças temas recorrentes no ensino, o que as ajuda, por exemplo, na hora de estudar para provas. Alguns desses títulos estão disponíveis em inglês — a linha de mangás Ohmsha explica diversos assuntos científicos e matemáticos avançados, como "O Guia Mangá de Bioquímica" e "O Guia Mangá de Banco de Dados".

 

Enquanto esses são bons e provavelmente têm uma demanda maior considerando o grau de dificuldade desses assuntos para a maioria das pessoas, ainda não há versões em inglês desse tipo de mangás. No entanto, há a excelente série americana de Larry Gonick, "A História do Universo em Desenho", mas o que exploramos neste especial é a série de História Mundial publicada pela Shueisha, entitulada "World History" (Sekai-no Rekishi).

 

 

 

 

Ilustrada por vários artistas e desenvolvida em consultas com muitos professores (geralmente da prestigiada Toudai, Universidade de Tóquio), a série Sekai-no Rekishi faz um bom trabalho no geral em expressar os conceitos principais e importantes eras na história mundial sem entrar na cabeça de sua jovem audiência (seu público-alvo está nas escolas do primário).

 

A obra tem 20 volumes com cada um cobrindo diferentes eras importantes: China e Coreia medievais, a Revolução Industrial etc. Cada volume é dividido em até quatro capítulos explicando quatro eventos chave ou progressos de cada era: Alexandre o Grande, Júlio César e o aparecimento do Cristianismo na Grécia e Roma são alguns dos exemplos de livros. Como os eventos são explicados podem variar para uma história direcionada mais para a personalidade. Figuras históricas chave aparecem na história de uma forma resumida, enquanto para processos mais amplos como a povoação do Oeste Americano ou a independência da África, personagens comuns são inventados para ilustrar os conceitos relevantes.

 

Aqui estão algumas coisas que aprendemos sobre história mundial ao longo do mangá... e algumas das coisas que ainda não temos tanta certeza.

 

 

12 Coisas Que Aprendemos Sobre a História Mundial



1- Não se esqueça da Zâmbia: O livro 19, na independência dos países Asiáticos e Africanos, conta a história de Lubuto, um aspirante a atleta olímpico que trabalha como escavador em minas de cobre. Suas aspirações são usadas como uma metáfora para as aspirações dos africanos em ter um futuro melhor em seus governos nativos. O mais interessante dessa história é o cenário: Zâmbia. Falar sobre a África na história mundial é muito raro, mas focar na Zâmbia é algo único. Geralmente as histórias do sudeste da África são focados na África do Sul, com seus problemas na luta contra o Apartheid, ou no Zimbábue, com seu libertador-virando-ditador-tirano Robert Mugabe, ou talvez Angola e Moçambique com suas longas guerras civis. Mas Zâmbia?! Esta é uma escolha muito humilde para se escolher, considerando o leque de opções entre os turbulentos países africanos.

 

 

 

2- Depois da Guerra do Ópio, a China enfrentou uma massiva revolta de camponeses liderados por um rapaz que pensava ser o irmão mais novo de Jesus. A Guerra do Ópio, em que uma China super confiante foi decisivamente derrotada por traficantes de drogas britânicos, é uma história bem conhecida. Mas quantos não-chineses sabem sobre a Rebelião de Taiping, uma enorme guerra civíl que se desdobrou em suas consequências? O líder da rebelião, Hong Xiuquan, foi um candidato falho nas provas para servidor público que se convenceu de que o Deus Cristão queria que ele estabelecesse um paraíso cristão na Terra. Sua revolta foi baseada na igualdade entre etnias, classes e gêneros, mas muitos de seus seguidores se desviaram para o crime e a longa guerra acabou enfraquecendo ainda mais a China, num momento em que dificilmente poderia gastar suas finanças. O "World History" retrata isto nos mostrando a saga de Chan Mingwan, que melodramaticamente jura vingar a morte de seu tio (um viciado em ópio) e seu pai (morto na Guerra do Ópio), apenas para acabar lutando na Rebelião Taiping. Sua desilusão com a causa dos rebeldes apresenta um justo ponto diferenciado: algumas vezes, lutar pela causa dos pobres e oprimidos contra um tirano corrupto nem sempre é a coisa certa.

 

 

 

3- A Índia também teve uma Joana D'Arc. Lakshmibai, rainha de Jhansi, viveu durante os anos de 1800, quando os britânicos foram aos poucos se apossando de vários principados da Índia. Eles se recusaram a reconhecê-la como herdeira de direito ao trono quando seu marido morreu e colocaram-na para fora do palácio. Alguns anos depois, um motim surgiu entre os soldados Indianos da Grã-Bretanha e as chamas deram início a uma rebelião nacional. Desafiando expectativas culturais, a rainha se juntou e lutou pessoalmente contra os britânicos assim que tentaram tomar Jhansi. Sua história teve um final triste, no entanto: ela foi morta em combate e a rebelião foi sufocada. Mas Lakshmibai é reverenciada hoje como uma heroína na Índia.

 

 

 

 

4- Felipe II levou a Espanha à falência mesmo com todo o ouro e prata do Novo Mundo. Felipe II, notavelmente o rei mais orgulhoso e inepto da Espanha nos anos de 1500, herdou um país repleto de riquezas do Novo Mundo e dos impostos dos movimentados portos nos Países Baixos. Porém explodiu uma guerra cara nos Países Baixos e um generoso palácio nos arredores de Madri (a dívida deixada por seu pai também não ajuda muito). O mangá retrata isto mostrando Miguel de Cervantes (autor de Dom Quixote) retornando da guerra para encontrar Madri aos pedaços e repleta de companheiros veteranos feridos.

 

 

 

5- Às vezes, mesmo as políticas bem-intencionadas não funcionam muito bem. Wang Anshi não é uma figura muito famosa entre os americanos, mesmo aqueles interessados ​​na história da China provavelmente não vão estar familiarizados com ele. Ele não era um militar chamativo ou um tema óbvio para um épico filme de época. Wang era um simples funcionário na Dinastia Song (anos 1000) que veio de uma região pobre e entrou em um serviço no governo determinado a melhorar a sorte das massas famintas da China. Suas reformas incluíram a redistribuição de terras, os empréstimos do governo aos camponeses e uma regulamentação mais rígida aos comerciantes ricos. Infelizmente, ele encontrou a oposição chinesa entrincheirada, que se ressentia por sua perda de status e cargos; suas reformas acabaram se desfazendo mais tarde. É uma história interessante, mas certamente não é algo que eu esperaria ver em um mangá para crianças. Afinal, é de se esperar mangás sobre as questões da China contra os bárbaros, não sobre reforma tributária e regulamentação orçamentária do Estado.

 

 

 

 

6- Ser mandado e ter muita liberdade são ambos ruins. Assim conclui a filha de Wang Zhiming, um professor (fictício) que sofre perseguição durante a Revolução Cultural da China. A era de Mao Zedong é uma parte delicada da história chinesa, uma vez que, pela maioria dos relatos, apesar de suas políticas terem sido totalmente desastrosas e levado grande sofrimento e revolta no povo chinês, ele ainda é reverenciado como fundador da República Popular. Em geral, o mangá não economiza em mostrar como foi desastrosa a Revolução Cultural, mas - talvez surpreendentemente, considerando como ele foi brutalmente espancado pelos guardas vermelhos - Wang se recusa a culpar o governo chinês, e aponta irritado para a sua filha que a América, arqui-rival da China, podem até ter mais liberdade, mas também tem uma grande diferença de riqueza e "é uma sociedade cruel para os fracos." O próprio Mao também aparece e é retratado com simpatia, como um homem determinado a realizar seus ideais, não importa o quê.

 

 

 

 

7- Havia um antigo Palácio de Verão inspirado na arquitetura ocidental. O Palácio de Verão, um retiro imperial de palácios, lagos e jardins, é uma das principais atrações turísticas de Pequim hoje. Mas você sabia que havia um velho Palácio de Verão? O "Yuanmingyuan" foi construído perto do moderno palácio de verão no início de 1700. Os imperadores chineses naquela época foram influenciados por missionários jesuítas na corte imperial e queria ver fontes e arquitetura em estilo europeu em seu jardim. Mesmo que este somente ocupasse um canto do vasto complexo, ele ainda era um símbolo importante da marca jesuíta na Dinastia Qing. Infelizmente, o palácio foi incendiado pelas furiosas forças anglo-francesas durante a Segunda Guerra do Ópio.

 

 

 

 

8- Mohandas Gandhi e Jawaharlal Nehru foram igualmente importantes na luta pela independência da Índia. A maioria das representações ocidentais da luta pela independência da Índia, notavelmente o filme "Gandhi", retratam Mahatma como o Pai Fundador da Índia. "World History" reconhece a sua importância enquanto se concentra mais em Nehru, o mais prático e politicamente orientado dos dois. Considerando-se que Gandhi, com sua aura espiritual e doutrina adorável da não-violência, é a figura mais carismática, e esta é uma escolha surpreendente. Uma vez que, em última instância Nehru se tornou o chefe do Congresso (partido político fundador da Índia) e primeiro-ministro da Índia.

 

 

 

 

9- A Coréia Medieval teve algumas conquistas notáveis​​, também. A relação do Japão com a Coréia nunca foi muito agradável. A maioria dos japoneses simplesmente parecem ignorar o seu vizinho, outros olham para eles como inferiores e chorões. (Veja o mangá Kenkanryu, por exemplo.) Fiquei impressionado com o capítulo sobre a Coréia medieval, uma vez que reconhece as realizações coreanas na impressão de xilogravura e o desenvolvimento de um sistema de escrita. Ainda mais selvagem, porém, é que ele faz o Japão parecer o cara mau, apontando que lordes japoneses pilharam cerâmica coreana e apresentaram a Coréia como protagonista na invasão de 1592 do Japão. Yi Sunshin, o almirante que voltou a frota japonesa com seus temíveis "navios de tartaruga", é chamado de herói. Agora isso é algo que a maioria dos países têm dificuldade em fazer.

 

 

 

 

10- As Cruzadas foram realmente uma máquina de fazer dinheiro. O capítulo sobre as Cruzadas cobre os pontos principais, mas opta por concentrar-se no cenário mercantil em vez do choque de armas no primeiro plano. Nós seguimos uma família de comerciantes genoveses que têm a confiança do papa e fazem fortuna vendendo navios, alimentos e suprimentos para os cruzados. Um deles pergunta: "O que há de errado com um comerciante pensar sobre como ganhar dinheiro?" mas cresce desiludido com o aumento da ignorância das Cruzadas. Ele atinge seu limite quando este personagem sombrio, um comerciante de Veneza (sim!), vende seu filho adotivo para a escravidão como parte da infame Cruzada das Crianças. Talvez tenha algo a ver com o professor aconselhando a estudar cidades medievais.

 

 

 

 

11- Soldados indianos lutaram como mercenários nas guerras coloniais britânicas na África. "World History" inclui um capítulo sobre "a grande invasão das potências na África", que gira em torno dos diferentes conflitos africanos, assim como o outro capítulo África. Ele introduz os leitores a um personagem fictício chamado Jahan, um mercenário Sikh lutando para os britânicos na guerra contra Mahdi (um rebelde muçulmano) no Sudão. Ele questiona por que ele está lutando por um império voraz como a Inglaterra e decide que está fazendo isso para sobreviver. Eventualmente, porém, ele é tragicamente morto na Guerra Boer, e decide enquanto morre de que esta foi a sua punição por lutar pela sua contratação e diz a seu jovem protegido sudanês, Wami, para viver até o dia em que a África seja livre novamente.

 

 

 

 

12- Carlos Magno tinha uma espada legal. Em um ponto no livro 6 o imperador violento Karl, o Grande (Carlos Magno) orgulha-se de sua espada preciosa ", um sinal do poder concedido a mim por Deus! Onde quer que ela passe, infiéis tremem e meus adversários fogem!" No começo eu assumi que este foi um extravagante incidente de fantasia, mas acontece que a espada de Karl, "Joyeuse", na verdade é lendária, e (ou o que se dizia ser ele) foi posteriormente usada para coroar os reis da França.

 

 

 

 

Infelizmente, por tudo o que esses livros me ensinaram, houve alguns casos em que se deixou levar. Na proxima parte do especial falaremos sobre algumas "anti-lições" que chamaram a minha atenção.

 

 

Tradução feita a partir do texto original presente aqui.

__________________________________

Diego Silva é redator da Crunchyroll.pt e também é apaixonado por Mangás e Games

Other Top News

0 Comments
Be the first to comment!
Sort by:
Hime banner

Try The NEW CrunchyrollBeta

check it out