Conversa sobre mangás com a Panini e a JBC

Saiba mais sobre o trabalho das principais editoras de mangá do Brasil.

De um lado os editores de Naruto, Toriko e One Piece. De outro o editor-chefe da equipe de Genshiken, Death Note e Blue Exorcist. Mas em meio às muitas novidades (como o lançamento de Shingeki no Kyojin pela Panini em novembro), o que mais chamou a atenção na participação das editoras Panini e JBC no Anime Friends 2013 foram as muitas curiosidades sobre o trabalho editorial no Brasil.

 

Panini Anime Friends

Diego M. Rodeguero, Bruno Zago e Beth Kodama, editores da Panini durante palestra no Anime Friends

 

Para quem quer ser um tradutor ou editor de mangás a principal dica é ter um bom currículo. Todos os editores concordam que o candidato deve, de preferência, ter formação superior, uma boa cultura geral e, claro, muita paixão. Cassius Medauar, editor-chefe da JBC, afirma que as contratações da editora são sempre baseadas no banco de currículo. “Não importa o quanto o cara for bom, se ele não mandar um currículo, não tem como saber da existência dele”, afirma Medauar. Aí também entra a questão da cultura geral. Os mangás podem ser sobre qualquer assunto, então é essencial que a equipe envolvida na sua tradução seja capaz de buscar as melhores respostas para qualquer eventual questão.

 

Mesmo contando com bons profissionais, o trabalho nas editoras é bastante corrido. Para conseguir trabalhar com a pressão dos prazos, é comum que as editoras terceirizem seu trabalho. Beth Kodama, editora da Panini, explica que é tudo muito feroz nesse ramo, e Medauar reforça dizendo que não tem como as editoras fazerem todo o trabalho sem terceirizar: é muito trabalho para poucas pessoas.

 

Cassius Medauar

Cassius Medauar, editor-chefe da JBC, durante palestra no Anime Friends

 

Eles traduzem, revisam e editam cada página de suas publicações. O trabalho de edição das páginas é geralmente o mais pesado. Eles pegam as páginas dos mangás e precisam trabalhá-la para que ela receba a tradução brasileira. Muitas vezes há grandes palavras em japonês cortando os desenhos, então um grande trabalho para apagar essas palavras e reconstruir o desenho original se torna necessário. Quem trabalha com isso sabe o quanto pode ser difícil e demorado reconstruir um desenho, principalmente se ele for colorido.

 

Algo interessante que ocorre na redação da editora Panini é que todos sabem fazer todo trabalho. Claro que cada um tem a sua especialização e seu foco é nisso, mas todos lá dentro são capazes de discutir determinada tradução de termo, por exemplo. Para Beth, é essencial que os profissionais conheçam os detalhes do trabalho editorial, isso ajuda a fazer um trabalho mais uniforme e de qualidade, mesmo com as inevitáveis terceirizações. Já na JBC as coisas são mais rígidas. Cada um faz sua parte e esta deve ser bem feita logo de primeira. Um tradutor cuja tradução precisa de modificações demais na hora da revisão tem seu trabalho posto em cheque.

 

Questionados sobre o trabalho dos scanlators, grupos de fãs que traduzem e editam mangás e os publicam na internet, os editores falaram que não há como ignorar sua existência, afinal, eles são fãs, tanto quanto os próprios editores profissionais. Mas Beth alerta para o pessoal que faz parte de scanlators e gostaria de trabalhar em alguma editora: “Algo muito irritante nos scanlators é o péssimo português. A língua portuguesa é importante para qualquer área e mesmo que o trabalho seja gratuito, de fã para fã, não custa nada dar uma revisada e compartilhar material de qualidade”.

 

 

O mercado editorial brasileiro: por que não temos tantos mangás como os japoneses?

 

Beth Kodama, editora da Panini, é enfática: japonês não tem medo de gastar 300 ienes (aproximadamente 6 reais) em uma edição da Shonen Jump, ler e depois jogar fora. Nada de colecionar ou guardar para as próximas gerações. No Japão eles possuem um senso diferente do nosso em relação à cultura e ao entretenimento; é tudo consumido na mesma hora e há sempre espaço para mais.

 

Naruto Panini

Mangás de Naruto à venda no Anime Friends. Qualquer modificação no mangá, seja uma página que os editores decidam colorir ou uma capa que eles queiram mudar, deve ser autorizada pelas editoras japonesas.

 

Além das diferenças culturais entre as nações, um fator marcante que dificulta o trabalho das editoras em trazer mangás para o Brasil são as gráficas. Cassius Medauar lembra que até há pouco tempo as gráficas não tinham experiência com a impressão de mangás, o que resultava em edições que se descolavam nas mãos do leitor quando se virava uma página. O papel usado também é um fator polêmico: de um lado, leitores querendo mangás baratos com a melhor qualidade possível; de outro, o preço dos papéis usado pelas gráficas. Só essa equação já explica muita coisa. Para baratear o valor dos mangás no Brasil a popularização deste seria a saída mais fácil, pois quanto mais pessoas lerem, mais negociável seria os valores da produção.

 

Uma confusão muito comum das pessoas é a respeito do cancelamento de mangás. Os mangás são independentes uns dos outros, então as baixas vendas de um não influi nas negociações de licenciamento de outro. Mas vale lembrar que mangás que já foram publicados em outros tempos e não tiveram o sucesso merecido ficam marcados e é extremamente difícil trazê-los de volta para uma nova edição.

 

Durante o Anime Friends 2013 a editora JBC anunciou o mangá Inazuma Eleven por menos de 5 reais e num formato totalmente novo, pensado para a popularização dos mangás no Brasil. Isso levanta muitas questões. Cada vez mais é frequente ver as críticas dos leitores ao trabalho da editora, especialmente no que se refere às adaptações de suas traduções. Por outro lado, a editora está determinada em fazer do mangá algo popular no Brasil e seu crescimento no mercado nacional é inegável. Eles não querem atingir apenas os fãs de mangás; eles também querem alcançar quem nunca ouviu falar. Atingir novos públicos seria um grande passo para o mercado editorial brasileiro.

 

 

Vocês acham que a editora JBC vai dar conta desse projeto ousado de popularização do mangá no Brasil? Não deixem de comentar. Também convido vocês a começarem uma conversa sobre o tema nos nossos fóruns, que foram recentemente reestruturados.

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