The God's Lie - Deus também mente de vez em quando

Uma obra incrível que passou desapercebida por muitos

A presença de títulos com temáticas mais sérias sempre foi bastante requisitada no mercado brasileiro de mangás. Não só pela questão de gosto e diversidade nas obras aqui lançadas, mas também por uma necessidade de demonstrar que, diferente de como muitas pessoas fora do universo otaku pensam, mangá nem sempre é coisa de criança.


Kamisama ga Uso wo Tsuku. (conhecido como The God’s Lie no Brasil) foi um lançamento que pegou muita gente de surpresa. O mangá usa e abusa (de um jeito não exagerado e um tanto realista) de um tema muito polêmico, e talvez não agrade pessoas que sejam sensíveis a conteúdo psicológico mais pesado.


Atenção: o texto a seguir não contém spoilers.


Natsuru Nanao é um garoto de onze anos que é o craque do seu time de futebol, mas ainda assim as garotas não conversam com ele por causa de um acontecimento ao ser transferido para sua escola atual. Como seu pai morreu há um tempo atrás, ele vive apenas com sua mãe, só que isso não o distrai de sua paixão pelo esporte e em continuar com seu sonho em ser um jogador profissional. Um dia, uma colega de classe chamada Rio Suzumura se aproxima de Natsuru, o que acaba fazendo com que aconteça uma grande mudança em ambas as vidas das crianças.


Enquanto fala com Rio, Natsuru imediatamente começa a se interessar por ela. Após o garoto salvar um gato abandonado, ele vai atrás de Rio e seu irmão mais novo Yuuta e pergunta se eles podem cuidar do felino. Os irmãos aprovam a ideia e pedem para que os acompanhe até a casa, mas quanto Natsuru chega na residência ele fica chocado ao descobrir que os dois moram sozinhos em uma casa suja, e Rio pede para que o garoto mantenha segredo. Conforme Natsuru passa mais tempo com os irmãos, as circunstâncias e razões para manter tudo em sigilo são mostradas aos poucos.



The God’s Lie apresenta-se de um jeito divertido e descontraído, excelente para quem não foi atrás de quaisquer informações sobre a história do mesmo. O ritmo se mantém assim por um curto tempo, até um pouco depois do meio do primeiro capítulo. Nesse momento você percebe que nem tudo está tão bem quanto parece estar.


O mangá se mantém real o tempo todo, com situações do cotidiano bem próximas de nós, sem a romantização presente de muitas obras. Natsuru e Rio, personagens maravilhosamente bem construídos, não possuem famílias consideradas “perfeitas”.


O garoto é ignorado por (quase) todas as garotas de seu colégio, perdeu o seu pai há alguns anos e agora mora somente com sua mãe, que se esforça trabalhando com light novels. Se repararmos bem, vamos ver uma incrível dualidade na personalidade e nas atitudes de Natsuru em poucas páginas da construção e introdução do personagem.


No primeiro caso citado, temos uma grande demonstração de inocência e de inexperiência, já que o menino não sabe se portar diante de uma “demonstração de amor” vinda de uma menina, além de expôr claramente que preferia jogar bola ao invés de lidar amorosamente com alguém do sexo oposto (pensamento bem comum para crianças da idade dele). Mas já no último caso, vemos algo totalmente diferente, mas ainda assim crível.



Temos a percepção de Natsuru de que a mãe se esforça, que luta para sobreviver e que, mesmo sendo desastrada (e às vezes um tanto irresponsável por não conseguir cumprir as tarefas do trabalho e fazer refeições com comida congelada na maior parte das vezes), ela faz tudo por ele. Essa noção de responsabilidade e de maturidade do personagem o deixa bem interessante, com um certo dualismo entre ser uma criança e ainda assim ser maduro o suficiente para dar valor à mãe desjeitosa que tem.


Tudo isso acontece de maneira diferente com a Rio. A personagem parece estar calejada às dificuldades da vida: cuidar do irmão mais novo, das finanças, das compras de mercado, da comida, das roupas, dos estudos. Apesar de todos os obstáculos, ela permanece forte, mas ainda com resquícios de uma necessidade de família (já que o pai é ausente) e até mesmo de uma necessidade de ser criança.


Conforme a obra caminha, temos rápidas mudanças de direção na personalidade da Rio. Claro, temos que manter em mente que, apesar dos acontecimentos a deixarem mais madura, ela é só uma criança. Interessante que ao mesmo tempo que ela anseia pela infância, também almeja ser esposa. Não desejada como uma, mas sim agir como uma ao lado de alguém amado.



O clímax de The God’s Lie é pesado, é denso, é desesperador. O acontecimento te deixa desacreditado, e o intervalo entre o final de um capítulo para o início de outro faz com que você tenha segundos com milhares de pensamentos de como uma obra, que apesar de parecer triste até o momento, começa a ficar mais sombria.


Só que a partir daí o mangá decai um pouco. O clímax é tão impactante e importante para os próximos eventos que acaba deixando certos momentos parecerem mais imaginação do que realidade, caso usemos como base toda a história amarrada e verossímil contada. Apesar desse ponto, a obra como um todo não é tão prejudicada, e o final nos deixa com um gosto mais doce do que amargo.


Com um traço meio “animesco”, Kamisama ga Uso wo Tsuku. surpreende e nos traz uma história no geral triste, mas com pitadas de esperança no meio. Assim como outras obras que fazem tudo que você estava pensando ser virado de cabeça pra baixo, o mangá deixa uma possível releitura bem necessária.


The God’s Lie


Autor(a): Kaori Ozaki

Editora: Panini Comics

Publicação: dezembro/2016

Demografia: Seinen

Revista: Afternoon (Kodansha)

Formato: 13,5 x 20 cm - 216 páginas

Papel: Offset 90g (capa com orelhas)

Número de volumes: 1

Preço sugerido: R$ 15,90

 

 


Gabriel F Gonzales (ou apenas yushuu) é redator de notícias na Crunchyroll.pt, amante de livros e nerd desde criança. Pronuncie corretamente Cthulhu e siga-o no Twitter.

 

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