One-Punch Man: A jornada de um webcomic a Hollywood

Um texto especial para falar sobre a adaptação live-action do clássico de ONE

 
Originalmente lançado como um quadrinho digital One-Punch Man foi escrito e ilustrado pelo mangaká de pseudônimo ONE. O recente anúncio que a série irá ganhar uma versão cinematográfica pela Sony Pictures Entertainment demonstra a ascensão meteórica e nada comum do mangá, cuja jornada é um tanto peculiar e esperançosa. 

 


ORIGEM NÃO CONVENCIONAL

 

Lançado originalmente em 2009 como um webcomic (histórias em quadrinhos com formato para leitura em web/digital), a obra conquistou fãs por seu enredo original de segmento cômico com muita ação ao estilo dos mangás shonen. É ao mesmo tempo uma homenagem e uma sátira às diversas histórias destes gêneros.

 

O autor publica a série em seu próprio website, que surgiu em meio a uma onda de mangás em formato digital na época. Dentre as vantagens deste formato está o número de público que se atinge, os autores divulgam suas obras por meio do maior painel do mundo, a internet.  A liberdade criativa e a não necessidade de uma editora para mediar a distribuição do conteúdo  facilita  a veiculação de trabalhos amadores, que podem se demonstrar promissores no mercado, como é o caso de One-Punch Man. A maior desvantagem, entretanto, é que não há remuneração pelo trabalho, uma vez que não se tem contrato com editoras e dificilmente um  patrocínio está envolvido. 

 

Com tempo One-Punch Man chegou à marca de milhões de visualizações, tornando-se tão popular que Yusuke Murata (Eyeshield 21), exímio ilustrador de mangás, contatou ONE com intuito de republicar sua obra, que então foi resenhada e publicada em 2012, pela revista Young Jump WebComics, que pertence a maior editora do Japão: a Shueisha. Isso, claro, rendeu bons royalties a ONE. A reedição foi um fator importante para divulgação e compilação da história em diversos volumes e venda em formato de mangá físico. Embora o mangaká ONE tenha sido brilhante em seu enredo, sua ilustração era de um desenhista amador; foi aí que Yusuke mostrou ao que veio, dando um ar profissional e um novo designe a obra, o que permitiu que posteriormente fosse produzido uma versão animada de One-Punch Man.

 

Não é preciso afirmar o sucesso do anime, produzido pelo grande estúdio Madhouse (Death Note, Overlord, Hunter x Hunter), que não decepcionou na adaptação lançada em 2015, com animação de qualidade e cenas de lutas fluidas acompanhadas de uma trilha sonora alucinante. A fórmula conquistou ainda mais fãs, incluindo aqueles que nem sabiam sobre as origens da obra. 

 

Não é comum versões animadas de mangás digitais no Japão, pois para que haja interesse dos estúdios, é levado em conta uma série de critérios, entre eles a venda, a popularidade de mangás físicos e a mediação de uma editora no processo (lembrando que o Japão é o país com maior número de editoras no mundo, demonstrando a importância deste mercado na terra do sol nascente). Obras independentes dificilmente chegam nesse patamar. Realidade que tem se modificado pelas novas formas de interação midiática, que atinge um número expressivo de pessoas e que possibilitam a divulgação de conteúdo por um baixo custo. 

 

Alguns elementos desta série a tornam única, independente da qualidade de desenho e animação. A dinâmica da história  explica a ascensão e interesse de Yusuke, editoras, estúdios e fãs pela obra. 

 

 

 AÇÃO, ORIGINALIDADE E HUMOR

 

O real sucesso da obra está na dinâmica de seu enredo, que acompanha a jornada de Saitama, um homem comum, que em algum momento de sua vida decide abandonar sua rotina trivial como um cidadão pacato para enfrentar monstros e seres que ameaçam a raça humana. Com o tempo, o personagem se torna tão forte que é capaz de derrotar qualquer adversário com apenas um soco — acredite: literalmente qualquer adversário que cruza seu caminho, com UM SOCO

 

A obra é uma paródia cômica aos animes e mangás de gênero shounen e seinen ao estilo porradaria, com vários elementos da cultura pop-japonesa, como Kaijus, aliens, insetos gigantes, androides, poderes parapsíquicos e artes marciais. Alguns monstros e elementos do anime fazem alusão a outras obras e seus  personagens, dedo de Yusuke, que é fã de Dragon Ball e Capcom, e decidiu se inspirar nas melhores referências em lutas para redesenhar as adrenérgicas cenas de ação em One-Punch Man.

 

Mas nada disso seria novidade se não fosse pelo apelo cômico da série, as diversas sátiras e sacadas do autor, que coloca um homem comum e nada atraente como o ser mais poderoso do universo em contraste a uma vida tediosa e de miséria em um bairro abandonado. O personagem enfrenta os mais arrogantes, monstruosos e ameaçadores seres malignos, colocados em situações embaraçosas e cômicas, sendo estes muitas vezes os  pontos fortes da série, que rende boas risadas. 

 

 

HERO!

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One-Punch Man se encaixa na categoria seinen com viés cômico, e como muitos já sabem, a comédia é uma forma de expressão crítica à sociedade. Portanto, um elemento bastante presente que a série satiriza e homenageia é uma questão dos heróis. No enredo existe uma organização de heróis profissionais que recebem para combater as ameaças ao planeta. Nessa realidade, os heróis são categorizados por rankings que expressam sua força, poder e influência social. 

 

Sarcasticamente, o protagonista não é um herói conhecido e muito menos bem rankeado, sua falta de carisma, aparência inusitada e má sorte acabam por afastar o personagem do estrelato que deseja. Saitama em si é uma crítica a relativa questão da aparência, influência e padrão social em torno da figura do “herói”, que deveria representar o melhor da humanidade. Mas as características sombrias como o excesso de arrogância, ganância e ego dessa classe de benfeitores parece ser deixada de lado pela fragilidade e necessidade social. Essa dualidade levanta a questão: o que é ser verdadeiramente um herói? Parte da jornada de Saitama procura responder essa pergunta, uma vez que embora seja aparentemente insuperável, o protagonista está longe do modelo esperado de salvador. 

 


EXISTENCIALISMO

 

O ser mais forte do universo, o que seria para muitos um sonho, passa a ser um pesadelo monótono em busca de um significado e objetivo de vida. No ínicio da jornada, Saitama preconizava apenas um objetivo: enfrentar e derrotar monstros. Após duros treinamentos e provas, o protagonista alcançou o grau de perfeição máximo, mas para tal, sacrificou pelo caminho a vontade de seu espírito. Embora para o espectador as lutas sejam repletas de ação e adrenalina, para Saitama tudo isso se reflete apenas em tédio. Não há desafio, não há adrenalina, o coração não acelera, a respiração não se torna ofegante, a incerteza não toma conta. Sensações aparentemente descartáveis, entretanto que nos tornam humanos, empáticos e vivos.

 

Muitas atletas de esportes radicais relatam a busca por essa sensação adrenérgica, um conjunto de estímulos de corpo e mente. Saitama já perdeu todos essas sensações. O anime em alguns momentos tenta gerar no espectador uma sensação semelhante a do protagonista. Ao apresentar um antagonista incrivelmente forte e poderoso, se cria a  expectativa de um combate épico, que de forma sagaz termina (por vezes) apenas com a cena de uma cabeça no chão, toda expectativa então se quebra em apenas um segundo. Esse ponto que é motivo de crítica para alguns é o modo do autor de passar os sentimentos profundos de Saitama aos demais, uma vez que uma das características que difere o personagem dos demais protagonistas de séries shounen e seinen é seu jeito quieto de um homem de poucas e simples palavras. 

 

O personagem principal espelha em seu rosto uma feição apática com seu olhar vazio, daqueles que encontramos no transporte público na volta para casa ou na ida ao trabalho. Ele aparenta ter perdido o sentido de sua existência — está anestesiado. E esse é o ponto forte da história, ele te convida a uma evolução do caráter, da personalidade, da busca cotidiana de significado através de nossas ações, pensamentos por um sentido para vida. 

 

Normalmente o que se aborda nas demais obras é o apelo pelo desenvolvimento pessoal do herói em termos de força física, em que na maioria das vezes o personagem já nasce aparentemente com um forte senso ético de caráter que o acompanha teimosamente até o fim da jornada. Mas Saitama já parte do fim, o personagem já está no topo, e nada o deixa satisfeito, pois no fundo, ele é um ser simples, de caráter simples e ética duvidável, que se encontra em um momento de ressignificação de sua vida. One-Punch Man nos convida a acompanhar a história após o fim da história, onde se dá o verdadeiro amadurecimento do herói. Em contraste a todo esse aparente clima depressivo, nos deparamos com engraçadas situações cotidianas da vida de um japonês comum, como preocupações financeiras, jogos de videogame, uma batalha contra um monstro e promoções de supermercado.

 


RUMO A HOLLYWOOD

 

Embora uma adaptação cinematográfica de One-Punch Man seja uma excelente notícia para a obra,  os fãs carregam um pé atrás com as versões hollywoodianas de animes. 

 

Razões não faltam, a exemplo de épicos que foram um fracasso, não apenas de bilheteria, mas de produção e adaptação do estilo japonês às telas americanas; aparentemente, a essência se perde no caminho. Todavia, há sempre uma ponta de esperança que uma adaptação agrade aos fãs. Esse será um trabalho difícil para a Sony, que aparentemente vai levar essa missão com seriedade, tendo convidado os mesmo produtores de Venon, seu último sucesso, para trabalhar no projeto. Quem sabe um sucesso surpresa aponte um início para um anime verso nos cinemas? Não custa sonhar...

 

Independente de sucesso ou fracasso, a principal mensagem que devemos tirar desta notícia é a esperança e confiança aos fãs e profissionais da área. Em tempos em que um webcomic independente pode alcançar o mundo, muitas outras possibilidades podem se abrir nesse nicho de mercado emergente.

 

A exemplo da parceria da Crunchyroll com a empresa de distribuição WEBTOON. Investindo em animações originais de autores independentes como Tower of God e The God of High School. Essa iniciativa pode trazer uma revolução ao universo otaku, que espera ansioso para adaptações de suas histórias favoritas. Quem sabe a sua história não pode ser a próxima?
 

 


Jorge Massarolo, aficionado pela cultura japonesa, editor-chefe do blog PsiqueAnime e colunista do Jornal 140, escreve com foco em animes, mangás e as questões implícitas simbolicamente nesse universo. Você pode encontrá-lo no Instagram em @jorgemassarollo.

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