[Review] Inuyashiki - Volume 1 | Panini

"Será que chorariam por mim?"

 

Inuyashiki é uma obra ousada que se destaca por suas críticas fortes e diretas ao povo japonês, a maioria se estendendo ao mundo, nos proporcionando uma série de reflexões e momentos inesquecíveis. Certamente você, leitor, não deve deixar passar um dos melhores lançamentos do ano, não apenas se limitando a mangás, mas falando de quadrinhos.

 

Depois de publicar os 37 volumes de Gantz, obra do mesmo autor, a Panini investe mais uma vez em Hiroya Oku, mangaká que se mostra além do comum pela sua narrativa visual, peso e abordagem dos temas em suas séries. Um ser humano excêntrico que consegue nos fascinar com sua loucura.

 

Quando começou a ser publicada em 2014 na revista Evening da Kodansha, os holofotes acabaram sendo posicionados para o mangá graças ao sucesso da obra anterior de Oku, então muitos estavam esperançosos.

 

Mas por quê? Simples, por mais que algumas pessoas afirmem e apontem erros em Gantz, a obra tinha ótimos pontos positivos e, além disso, muitos acreditam que o mangá terminou daquela maneira porque o autor queria parar de trabalhar com a série, mas que a editora Shueisha não gostaria de terminar uma publicação que estava fazendo sucesso, assim como acontece com obras da Shonen Jump. Vamos levar tudo isso como boatos, por mais que faça sentido e existam indícios.

 

Em nova casa, podemos ver que sua liberdade para construir seu novo mangá foi total, o que parece ter causado um ótimo efeito.

 

Com final programado para julho deste ano, se encerrando com 10 volumes, tendo potencial de sobra para se tornar a melhor obra do mangaká. Sem esquecer do anime, que será feito pelo estúdio MAPPA (Yuri!!! On ICE)  e começa em outubro, e do filme live-action, que está programado para o ano que vem.

 

 

História

 

58 anos e aparentando mais do que isso, Ichiro Inuyashiki é um senhor com uma família que frequentemente o desrespeita. Sem laços fortes e uma vida “sozinha”, ele acaba descobrindo que têm câncer terminal. Esperando pela morte, já que não possuí mais motivos para viver, tudo poderia terminar aqui. Porém, um acontecimento muda drasticamente o que ele é.

 

“Meu eu verdadeiro morreu. Quem acreditaria numa coisa dessas? Quem sou eu? Para que eu continuo existindo?”

 

A evolução de Gantz e 3D

 

Desde HEN, sua primeira série, Oku sempre colocou temas polêmicos em suas obras, mas durante seus anos de trabalho parece ter aprendido como abordar os temas de forma cada vez mais coerente a cada nova série.

 

Em Gantz, quando fazemos um panorama do começou ao fim da série, podemos ver uma evolução drástica em tudo, como o roteiro, que acabava se perdendo. Por ser uma história longa, ele conseguia esquecer certos personagens e desenvolver a trama sem usar recursos que tinha implantando anteriormente.

 

 

Nos desenhos o cenário, que é feito em 3D, se torna cada vez mais detalhado e rico. Os personagens, que são desenhados por cima de uma silhueta 3D feita pelos assistentes, acabam recebendo expressões e gestos que passam emoções de maneira muito eficaz. Antes desses processos, o autor primeiramente faz um storyboard, que é feito à mão, para que os assistentes possam usar como base. Sem esquecer a narrativa e quadrinização, que se tornam cada vez mais velozes e dinâmicas

 

Por fim, diferente de muitos mangakás que ficam estagnados, ele é um dos que está evoluindo constantemente, obra após obra.

 

Enxurrada de críticas

 

A crítica forte à falta de respeito com os mais velhos que acontece no Japão é só a ponta do iceberg dos temas abordados. Inuyashiki é uma pessoa como todos nós, levando sua vida da melhor maneira possível, trabalhando desde sempre e finalmente conseguindo uma pequena casa, acaba sendo desrespeitado e até mesmo ignorado pela família.

 

Sem esquecer que existe o Dia do Respeito ao Idoso no Japão, além do registro divulgado ano passado que afirma que 34,6 milhões de pessoas têm mais de 65 anos, correspondendo a mais de um quarto da população do país.

 

 

A falta de valorização dos idosos acaba refletindo em outros temas como ajudar o próximo, a deturpação da mensagem e informação em redes sociais e televisão, e até mesmo política. Nesse volume, temos um trecho onde adolescentes tentam matar um sem-teto, mostrando que algo no outro lado do mundo pode ser idêntico ao que acontece aqui.

 

Ritmo, sequência e fluidez

 

Com o excelente ritmo evoluído de suas obras anteriores somado a paixão por De Volta para o Futuro, o mangaká traz para nós uma série com sequências de páginas duplas de tirarem o fôlego, somado com uma quadrinização simples, eficaz e que aproveita da habilidade do autor em utilizar ângulos e mais ângulos para dar uma dinâmica que constrói o ambiente na mente do leitor.

 

Veja como o autor faz isso na sequência de páginas abaixo:

 

 

Os balões são bem dispostos nos quadros, dando uma fluidez na leitura inacreditável que casa muito bem com as sequências de páginas sem falas, como feito muito bem em Gantz. Para aqueles que tinham dúvida, alguns capítulos de Inuyashiki podem ser lidos rapidamente graças à ausência de falas e a ação desenfreada.

 

Traço, cenário e onomatopéias

 

Misturando o realismo com seu estilo, Oku parece ter finalmente encontrado seu traço definitivo. Os cenários, que são um show à parte, possuem muito preto e são bem detalhados, já os personagens são desenhados mesclando linhas finas, dependendo da fisionomia e idade, porém em certos casos em grande quantidade que contornam bem a área branca dando uma ótima noção de sombreamento e um bom contraste, que é aproveitado pelo ângulo em que as cenas são desenhadas. O rosto de Inuyashiki cheio de rugas transmite muito sentimento em momentos chave para o enredo graças a essas linhas e detalhes.

 

A quantidade de traços varia de personagem para personagem, já que o autor consegue transpor muito bem a faixa etária para que a gente reconheça só de bater o olho.

 

 

Uma das marcas do mangaká sempre foi suas onomatopéias e aqui não é diferente: em grande quantidade e em vários tamanhos, elas são utilizadas para causar e transmitir pressão, impacto e outras coisas de maneira bem inteligente e visível. Quando o Inuyashiki ouve vozes na sua cabeça por exemplo, elas ficam transparentes. É algo sutil, mas deixa o material mais atraente.

 

Edição Brasileira

 

Para tristeza de muitos a edição da Panini segue no formato padrão da editora, 13,7 x 20 cmpapel pisa brite, páginas coloridas, que não teremos em todas as edições, e capas internas coloridas com preço de capa de R$13,90, sendo o único diferencial a capa holográfica (a editora não informou se as demais edições também terão).

 

Foi muito comentado nas redes sociais que a Panini poderia ter lançado a obra em um formato parecido com One-Punch Man, Slam Dunk e outros, mas se pararmos pra pensar, ela já vem lançando vários mangás nesse formato, então fica cada vez mais complicado para os nossos bolsos se saírem mais e mais obras nesse estilo de material gráfico.

 

A tradução foi feita por Lídia Ivasa, de One-Punch Man, Assassination Classroom e Vinland Saga.

 

Para curiosidade, a editora manteve em certa partes a leitura japonesa, colocando ao lado a leitura em português. Particularmente, acho que deu um charme graças a fonte utilizada no original, que dificilmente conseguiria ser transposta de maneira parecida. 

 


 

Na parte editorial, não localizei nenhum erro de revisão, edição e letreiramento, tudo muito bem feito. Como era de se esperar da Panini, os honoríficos se mantêm.

 

Algo a se comentar é que a edição não possuí nenhuma numeração nas páginas, por isso tive que procurar uma referência mencionada no glossário contando página por página. Bom, isso acontece uma vez ou outra em nossas publicações, então não vou apontar como ponto negativo já que deve ser igual ao volume japonês.

 

Comentários Finais

 

Inuyashiki é sem dúvidas uma das minhas melhores leituras atuais. Nesse primeiro volume não vemos muito o que a obra irá focar durante o percorrer da história, como o “relacionamentoentre Inuyashiki e Shishigami, que seria o segundo protagonista do mangá e um personagem intrigante e muito bem utilizado, fazendo com que o roteiro avance inesperadamente de maneira sufocante; você não consegue parar de ler.

 

Além da ótima narrativa, ritmo e quadrinização fluída, lindos cenários, expressões faciais muito expressivas e muito mais, Hiroya Oku constrói um mundo crível e detalhado cheio de críticas ao ser humano, sua maneira de lidar com o que acontece a sua volta e o quanto somos limitados em momentos de medo e fúria.

 

 

A relação entre os dois protagonistas chega a ser de herói e vilão, mas utilizando isso ao seu favor, o autor cria camadas que levam o leitor a debater o sentimento dos personagens e avaliar que o bem e o mal não são preto e branco, que nós somos a mistura, o cinza.

 

Um drama pesado feito para refletir e tocar em certas feridas, Inuyashiki se mostra uma das melhores séries publicadas por aqui nos últimos anos, sendo uma compra obrigatória para os fãs de boas histórias.

 

Ficha Técnica

História e Arte: Hiroya Oku
Demografia: Seinen
Revista: Evening (Kodansha)
Periodicidade: Bimestral
Em andamento com 9 volumes no Japão (Se encerrará com 10)
Editora no Brasil: Panini
Formato:​ 13,7 x 20 cm​
Papel: Pisa Brite
Preço: R$ 13,90 
Classificação etária: 18 anos
Avaliação: 9/10


 

“Essa é a prova de que ainda sou humano.”

E você, gostou dessa primeira edição? Já conhecia a série? O que acha dela? Comente!



GabrielSauGabrielSau é redator de notícias na Crunchyroll.pt, imitador do Silvio Santos, fã e pseudo-crítico de quadrinhos e joguinhos. Siga-o no Twitter: @Gabriel_Sau, onde ele passa 80% do tempo falando de mangá.

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