[Resenha] Capítulo especial de Death Note: O conceito de inteligência dessa obra é realmente inteligente

A diferença entre Light e Minoru não é de "genialidade"

ATENÇÃO: Este texto representa apenas a opinião da redatora, não refletindo, de forma alguma, a opinião da Crunchyroll.

 

No começo de fevereiro, foi publicada uma história nova de Death Note, de capítulo único. Essa história, na verdade, esteve em uma exposição da série antes de ser finalmente publicada na Jump SQ. Caso você ainda não tenha lido, o capítulo está disponível gratuitamente em inglês e em espanhol na MangaPlus e em português, por R$12,90, pela JBC em diversas lojas online (ambas versões são digitais). Nós já temos uma resenha publicada aqui, pelo Teke, mas gostaria de deixar meus dois centavos também.

 

Com uma narrativa bastante diferente da obra original, invariavelmente surgiram comparações entre o protagonista desta história, Minoru Tanaka, e o conhecido Light Yagami, ou Kira. Uma das comparações que vi foi: “qual deles foi mais inteligente?”. Eu não gosto desse caminho, primeiro porque é muito complicado definir exatamente o que é inteligência, e, segundo, estamos falando de personagens que escolhem caminhos diferentes. Minoru não queria ser um Kira, não faz sentido pensar a inteligência dele em comparação com a do Light se pautando em suas ações.

 

Mas existe um contraponto muito interessante entre os dois nessa questão. Diferente de Yagami, Tanaka é um aluno completamente medíocre, para não dizer que é um aluno ruim. Mas ele não é burro. Aliás, muitos “alunos medíocres” são assim. É claro, a história força com a performance dele em testes de Q.I. para justificar que, na verdade, Minoru seria um gênio preguiçoso: ele vai mal na escola porque "quer" (na minha opinião sincera, ele só treinou testes de Q.I. o suficiente).

 

Bem, não vou entrar aqui no mérito da confiabilidade dos testes de Q.I. (spoiler: eles são muitas vezes questionáveis), mas, eu acho extremamente interessante essa abordagem. O Minoru não é o clichê do aluno-ruim-mas-que-no-fundo-não-é-tão-burro-assim-e-na-hora-do-aperto-sua-coragem-e-ousadia-compensam-sua-suposta-burrice-e-ele-salva-o-dia, ele realmente arquitetou um plano eficiente de como vender o caderno sem ser pego em pleno século 21, quando existe o Google vendo absolutamente tudo que você faz na vida. Ele é, no mínimo, calculista. Ao mesmo tempo, o rapaz não sabe nem ler o básico de inglês (que, convenhamos, não tem absolutamente nada a ver com inteligência).

 

 

Mas e daí? O que tudo isso significa? É simples: inteligência não é medida por nota escolar. Provas tradicionais, no estilo decoreba, medem sua capacidade de absorver (ou decorar) algum conteúdo, e não sua capacidade de raciocínio lógico, solução de problemas, inteligência emocional, alguns fatores importantes para ser uma pessoa saudável e responsável. Mas nosso conceito de inteligência é tão enraizado em performance acadêmica que o próprio Minoru não leva suas capacidades a sério, não acreditando muito quando Ryuk diz que ele poderia ser o melhor aluno do país, respondendo que é só bom em “fazer quiz”. Essa não é uma questão só dele, muitas pessoas se sentem burras por tirarem notas baixas, e, na maioria dos casos, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Dificuldade de aprender alguma coisa na escola não implica burrice, só demonstra que, por algum motivo, você não está conseguindo entender alguma coisa.

 

De qualquer forma, esse posicionamento da one-shot me parece uma revisão em certos conceitos: o Light provavelmente não era o melhor aluno simplesmente porque era inteligente, ele era o melhor aluno porque era ambicioso. É por ser ambicioso que ele também quer ser o justiceiro que vai construir o “Novo Mundo”, supostamente livre de criminosos, e marcar seu nome na História. Vivendo num momento diferente, Minoru não tem as mesmas pretensões, ele está mais preocupado em garantir um futuro financeiramente estável, como quase qualquer jovem que vive no mundo atual (um ponto de identificação, devo admitir).

 

Eu não quero dizer com isso que o Minoru não possui nenhuma ambição, é só que elas não são as mesmas das do Light. É aqui que eles se diferenciam realmente. Light era um megalomaníaco que, como já dito, queria construir um "novo mundo", já Minoru não está interessado em fantasias de grandeza, ele quer o dele (mesmo que, para garantir isso, ele divida com outras pessoas). Tanto é assim que ele não se importa em colocar o caderno na mão de chefes de Estado, que poderiam então voltar atrás com quaisquer promessas e praticar os abusos que quisessem. A diferença deles é política e de personalidade, não de inteligência.

 

death note especial

 

Enfim, mau aluno ou não, o plano do Minoru é tão bem arquitetado que até ofende os shinigamis (como todo bom jovem, eu diria), a história não cansa de ressaltar como aquele aluno, que mal acerta metade de uma prova, conseguiu chocar os “melhores cérebros” do planeta e do outro plano também. O único erro foi não pensar "fora da caixa": ele assume, inocentemente, que as regras não serão mudadas no meio jogo. De certa forma, é um erro de cálculo, talvez induzido até por sua falta de vontade de entrar na dança. Por não pensar que possuir o Death Note é parte de um jogo de poder, ele desconsidera os shinigamis como parte dos “jogadores” (mas, bem, não estava escrito em lugar algum que é proibido vender o caderno, então, é um “erro” natural).

 

Curioso, ao final, é a conclusão: ele morre, vítima de si mesmo, poderíamos dizer que vítima até mesmo da sua ética. Talvez, nisso, ele seja mais próximo do Light do que parece. Mas, para mim, fica uma dúvida no ar: será que é possível ter o Death Note e sair ileso? Talvez precisemos de alguém com um outro “tipo” de inteligência para descobrir.

 

E você, o que achou do capítulo? Conte para a gente nos comentários!

 

© Tsugumi Ohba, Takeshi Obata / Shueisha


perfilLaura é mestranda em Letras na USP, colunista na Crunchyroll.pt, redatora no JBox e eventualmente também escreve no Medium. Entrou nessa de desenhos japoneses por causa de Cavaleiros do Zodíaco e está aí até hoje. Para surtos e reclamações mais pessoais, o Twitter é @gasseruto.

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