[Coluna] Questionando Mitos: Seiya não é burro, só um pouco desinformado

O protagonista de Cavaleiros do Zodíaco pode ter muitos defeitos, mas burrice não é um deles

Não é segredo para ninguém o quanto eu sou fã de Saint Seiya – inclusive, eu já falei da série aqui algumas vezes, como nesta resenha de Knights of the Zodiac, ou neste texto sobre a habilidade paternal de cada cavaleiro de ouro (também falei sobre a Fundação Graad uma vez no Medium). Mesmo gostando bastante, minhas opiniões sobre a série muitas vezes são um tanto minoritárias dentro do fandom.

 

Entre gostar de Saori Kido e preferir a saga de Poseidon à do Santuário, talvez uma das minhas opiniões mais contrárias a um quase consenso sobre Cavaleiros seja: o Seiya não é burro. Ele pode ser um protagonista irritante, bobo ou forçado na opinião de muitos, mas burro ele não é. Talvez você esteja se perguntando “como assim o cavaleiro de Atena não sabia nem quem é Hades, o maior inimigo da deusa na série, não é burro?” e é exatamente isto que vou abordar dessa vez na minha coluna quinzenal.


seiya

 

Primeiro, para prosseguir com esta discussão é necessário definir o que é inteligência. Como eu disse numa resenha sobre o capítulo especial de Death Note, este é um conceito muito difícil de definir e mais difícil ainda de medir. No entanto, geralmente o termo está associado à habilidade cognitiva, que inclui raciocínio lógico, capacidade de adaptação e aprendizagem, planejamento, memorização e resolução de problemas (entre outras coisas). De todos eles, a memória do protagonista talvez seja o ponto mais discutível.

 

Seiya constantemente demonstra ser capaz de pensar logicamente, aprender com situações, planejar e resolver problemas. Na luta contra Shiryu durante o Torneio Galático, ele foi capaz de supor que, caso o punho mais forte batesse no escudo mais forte, ambos quebrariam e, assim, a maior vantagem de Shiryu seria anulada. Mais que isso, ele foi capaz de bolar uma estratégia efetiva para esta colisão, indo com tudo para cima do cavaleiro de Dragão e se esquivando no último segundo – foi um plano absurdo, sem dúvidas, mas não tinha lá muitas alternativas. Mais um bônus: Seiya aparentemente sequer conhecia a tal lenda que tratava deste problema, ele pensou tudo sozinho, no calor do momento. O demérito aqui fica todinho para Shiryu, que caiu na armadilha.

 

Posteriormente, Seiya demonstra novamente suas habilidades cognitivas quando luta contra Misty de Lagarto. Se deparando com um inimigo mais poderoso do que ele, o cavaleiro de Pégaso tem a sacada de concentrar a força de seus meteoros em um golpe único – dando apenas um “socão” ao invés de vários “soquinhos”, técnica eficiente no embate. Logo depois disso, ele ainda consegue deter os golpes de Misty, e aproveita que o cavaleiro de prata está surpreso para agarrá-lo por trás e saltar com impulso, girando no ar e caindo no chão (na água, no caso) com grande força.

 

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Assim, em uma única luta contra alguém bem mais forte do que ele, Seiya sai vitorioso por conseguir criar dois novos golpes (Cometa de Pégaso e Turbilhão de Pégaso, respectivamente). Logo em seguida à luta contra Misty, ele enfrenta Moses de Baleia e utiliza o Turbilhão de Pégaso novamente, demonstrando ter criado também uma estratégia para tentar contornar a suposta superioridade de seus oponentes.

 

Na saga de Poseidon, lutando contra Bian de Cavalo Marinho, Seiya consegue vencer porque o General Marina tinha um estilo de luta parecido com o de Misty, demonstrando sua capacidade de aprender com situações passadas. Seiya então tenta destruir o pilar do Pacífico Norte com vários golpes, sem nenhum sucesso. Tentando resolver o problema, ele pensa em se jogar contra o pilar. Assim como na luta contra o Shiryu, é um exagero, mas não é um plano infundado, afinal, se não está quebrando, é preciso colocar mais força, né? Felizmente, Kiki chega com a Armadura de Libra e explica que apenas ela é capaz de destruir o pilar (ou qualquer coisa assim).

 

seiya pegasus

 

Durante o final desse mesmo arco, ao perceber que não conseguiria destruir o Pilar Principal mesmo ao lado de Shiryu e Hyoga, com os três vestindo armaduras de ouro, Seiya pede para os amigos o jogarem no pilar utilizando toda a força de seus cosmos. Com a força dos três, Seiya consegue quebrar a “inquebrável” construção e resgatar Saori. Ele até pensa rápido nisso, talvez por estar com a ideia na cabeça desde a luta contra Bian. Novamente, o rapaz mostra que, apesar de talvez não ter as soluções mais brilhantes do mundo, está fazendo algum raciocínio lógico.

 

Acredito já termos evidências o suficiente de que as habilidades cognitivas de Seiya funcionam dentro da normalidade. Mas vou tocar no ponto do começo do texto: de fato, o garoto não sabe direito sobre Hades (e muitas outras coisas). Mas, vejam bem, isso não é questão de cognição, e sim de conhecimento formal. E temos até uma justificativa válida para essa desinformação toda, afinal, Seiya passou a idade escolar treinando e lutando ao invés de frequentar uma instituição de ensino – por culpa de ninguém menos que Mitsumasa Kido.

 

No caso de Hades, especificamente, é um pouco pior porque é esperado que um cavaleiro de Atena treinado no próprio Santuário saiba sobre as Guerras Santas. Mas, como fica evidente logo em sua estreia no Torneio, Seiya dormia durante as aulas expositórias de Marin – ou seja, ele provavelmente não absorveu quase nada delas (embora, durante a luta, ele lembre de coisas que ela disse enquanto ele dormia). Então, não é uma questão de alguma incapacidade do personagem em aprender ou memorizar, é apenas falta de vontade de estudar.

 

Não quero dizer que o rapaz é um gênio, até porque existem momentos em que, de fato, podemos questionar suas escolhas. Um deles é quando ele chega no salão onde Poseidon está: ali, Seiya tenta chegar até o Pilar Principal atacando o deus, que repele seus golpes. Seiya tenta de novo, recebendo novamente seus meteoros de volta e sendo temporariamente nocauteado. Ao se levantar novamente, Seiya recebe a armadura de Sagitário e tenta atacar Poseidon com uma flechada, que é rebatida e quase mata ele. Apesar de insistente, até aqui não é tão ilógico: ele tentou uma vez, tentou de novo para ver se não dava mesmo e aí fez uma terceira tentativa quando teve um up de poder.

 

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Mas a coisa fica feia na quarta tentativa, quando ele tenta de novo acertar Julian com outra flechada, só não morrendo porque Shina se joga na frente dele quando a flecha é rebatida. E na quinta tentativa, quem salva sua vida é Shiryu. Mas na sexta tentativa, com quase todo o elenco da série presente no salão e apoiando moralmente o protagonista, a estratégia magicamente funciona. Ele acerta Poseidon, muito mais por conveniência de roteiro do que por mérito, e todos vão até o último pilar.

 

Enfim, apesar de ter esses momentos de decisões um tanto difíceis de compreender, num geral, Seiya não é burro, mostrando diversas vezes ser apto ao menos para cumprir sua função como cavaleiro. Ele consegue pensar em novas estratégias durante lutas e momentos difíceis e, no fim das contas, atinge seu objetivo. Talvez uma questão seja apelar para soluções radicais e absurdas, ao invés de bolar saídas um pouco mais engenhosas. Mas, o problema real do protagonista da série é que tiraram dele a oportunidade de ir para a escola, e é por isso que ele não sabe sobre muita coisa básica.

 

Mas, e você, concorda com esse texto? Conte para a gente nos comentários!


© Masami Kurumada, Shueisha / Toei Animation

© Chimaki Kuori, Akita Shoten / Masami Kurumada / Toei Animation


perfilLaura é mestranda em Letras na USP, colunista na Crunchyroll.pt, redatora no JBox e eventualmente também escreve no Medium. Entrou nessa de desenhos japoneses por causa de Cavaleiros do Zodíaco e está aí até hoje. Para surtos e reclamações mais pessoais, o Twitter é @gasseruto.

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