[Coluna] É o mês da mulher! Conheça um pouco do começo do shoujo e a "quebra de paradigma" nos anos 70

Mas é bem pouquinho mesmo

Março é geralmente celebrado como o “mês da mulher”. Como minha pequena contribuição, resolvi escrever um pouco sobre o pedaço da indústria de mangás que nasceu supostamente dedicado às mulheres: o shoujo – ou, pelo menos, um pouquinho das raízes desse pedaço do mercado de mangás (só para lembrar, shoujo não é gênero).

 

Você conhece autoras de shoujo? Elas ganharam mais espaço no mercado mainstream global de mangás após sucessos como Sailor Moon e Cardcaptor Sakura. Arina Tanemura, Natsuki Takaya, Kazune Kawahara – além das próprias Naoko Takeuchi e CLAMP – são algumas das autoras que já tiveram obras shoujo publicadas no Brasil. 

 

Mas, muitas vezes, nosso conhecimento do lado de cá fica restrito ao que veio a partir dos anos 90. Evidentemente, o impacto da turminha da Usagi (ou Serena, se preferir) dentro e fora do Japão é inegável. Aqui no Brasil, seria impossível falar de indústria shoujo sem se referir a elas, por exemplo.

 

rose of versailles, versailles no bara 

 

Contudo, isso talvez passe aquela impressão de que é só daí para frente que importa e, bom, não é bem verdade. A história do mangá shoujo no Japão começa algumas décadas antes – até mesmo antes do mangá shoujo propriamente dito (e, sim, essa afirmação faz sentido, não se preocupe). Em torno de 1900, com a modernização do Japão, começam a surgir revistas voltadas para garotas – as revistas shoujo – segundo a pesquisadora Mizuki Takahashi, foi nessa época que surgiu o conceito de “shoujo”, mas não vou me estender nisso. Essas revistas traziam histórias em texto, com algumas ilustrações, voltadas para esse público (algo meio parecido com uma light novel), mostrando para as leitoras “personagens modelos” para serem seguidas.

 

Essas revistas criaram estilos narrativos e de ilustração próprios para apelar ao público feminino, estilos que acabaram influenciando posteriormente os mangás shoujo, que surgem em torno dos anos 50 (as revistas eventualmente passaram a publicar quadrinhos ao invés de textos), mas era, mercadologicamente, um espaço secundário comparado ao shounen. Jun’ichi Nakahara, um ilustrador de muito sucesso nessas revistas nos anos de 1930, é tido como um dos responsáveis por criar o estilo visual com corpos finos e olhos exagerados, que acabou influênciando os quadrinhos (o estilo é chamado jojo-ga).

 

jun'ichi nakahara, junichi nakahara, shoujo 

 

Macoto Takahashi é apontado como um dos primeiros artistas a utilizar o jojo-ga em mangás shoujo. Um outro nome frequentemente apontado como importante é o de Osamu Tezuka, com a produção de A Princesa e o Cavaleiro. A literatura acadêmica aponta que, embora Tezuka tenha tido uma importância grande na indústria shoujo em questão narrativa, quando se fala de ilustração, o peso maior seja o das “revistas literárias” – uma influência por vezes esquecida.

 

makoto takahashi shoujo artist 

 

Ao final dos anos 60, diversos movimentos sociais emergiram em vários países e houve uma pressão muito forte de mulheres pelo direito de entrar no mercado de trabalho, e o Japão não foi uma exceção. Até então, devido ao contexto da época, eram poucas as mulheres dentro da indústria de mangás, mas a partir dos anos 70 elas entram em peso – e querendo escrever shoujo.

 

Inclusive, essa é considerada pela crítica como a “Era de Ouro” do shoujo. Autoras como Yumiko Oshima, Keiko Takemiya, Moto Hagio e Riyoko Ikeda são parte de um grupo chamado de 24-nen gumi, “o grupo do ano 24”, por serem nascidas em torno do ano 24 da era Showa (1949 no nosso calendário), embora seja um pouco complicado colocar artistas tão diferentes dentro de um mesmo balaio.

 

tera e,terra e, towards the terra 

 

Oshima talvez seja a mais aclamada criticamente de todas, já nos anos 70 ela ganhou prêmios pelas obras Mimoza Yakata de Tsukamaete (1973) e Wata no Kuni Hoshi, também conhecida como The Star of Cottonland (1978-1987). De 1996 a 2011, ela publicou ainda Gu-gu datte Neko de aru, obra que levou um Prêmio Osamu Tezuka em 2008.

 

Takemiya é apontada por muitos como uma da primeiras autoras de boys’ love (BL), com Sanrumu Nite, ou In The Sunroom (1970). Ela ainda era uma leitora ávida de shounens, citando Shotaro Ishimori (Cyborg 009) e Tezuka como influências no seu trabalho. Takemiya também ganhou prêmios nos anos 70 por obras como Kaze to Ki no Uta (1976-1984) e o shounen Tera e…, ou Toward the Terra (1977-1980).

 

Hagio foi outra pioneira dos BL, com Toma no Shinzou, ou The Heart of Thomas (1974-1975), sendo considerada uma das mais influentes na indústria shoujo posteriormente. Seus mangás Jūichinin Iru!, ou They Were Eleven (1975), e Poe no Ichizoku, também conhecido como The Poe’s Clan (1972-1976), receberam prêmios da Shogakukan na década de 70.

 

versailles no bara, rose of versailles, rosa de versalhes, riyoko ikeda 

 

Ikeda fez História sendo uma das primeiras – se não a primeira – mangaká de shoujo a escrever um mangá histórico, A Rosa de Versalhes, ambientado durante a Revolução Francesa (e cuja protagonista supostamente seria Maria Antonieta, embora a Oscar acabe quase levando esse trunfo). A obra foi publicada no Brasil pela editora JBC entre 2018 e 2019.

 

Com narrativas mais ousadas, tratando temas como História, política e sexualidade, elas são geralmente tidas como autoras que “revolucionaram” a indústria shoujo. Muitas dessas renovações podem ter sido, em parte, influência do estilo jojo-ga, até porque, dificilmente as coisas são criadas do zero (e as semelhanças estão aí). Os trabalhos dessas então moças foram responsáveis pela mudança do olhar da crítica às produções shoujo, que passaram a ser vistas com maior apreço.

 

As 24-nen gumi sem dúvidas influenciaram as artistas que vieram depois. Dos anos 70 para cá, a indústria shoujo cresceu e se diversificou mais ainda, num processo um tanto distinto do da indústria de shounen. Tantos anos de história certamente não cabem em um único texto (e, com certeza, teve muita coisa que já não falei aqui), mas espero que tenha dado para entender um pouco mais sobre as origens e início do mangá shoujo.

 

E você, sabia dessas coisas? Tem alguma informação a acrescentar? Conte para a gente nos comentários!

 


Referências:

  • Toku, M. (2007). Shojo Manga! Girls' Comics! A Mirror of Girls' Dreams. Mechademia, 2(1), 19-32.
  • Shamoon, D. (2007). Revolutionary Romance: The Rose of Versailles and the Transformation of Shojo Manga. Mechademia, 2(1), 3-17.
  • Shamoon, D. (2008). Situating the shōjo in shōjo manga. Japanese Visual Culture: Explorations in the World of Manga and Anime, ed. Mark W. MacWilliams, 137-154.
  • Takahashi, M. (2008). Opening the closed world of shōjo manga. Japanese Visual Culture: Explorations in the World of Manga and Anime, ed. Mark W. MacWilliams, 114-136.

perfilLaura é mestranda em Letras na USP, colunista na Crunchyroll.pt, redatora no JBox e eventualmente também escreve no Medium. Entrou nessa de desenhos japoneses por causa de Cavaleiros do Zodíaco e está aí até hoje. Para surtos e reclamações mais pessoais, o Twitter é @gasseruto.

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