Os Amigos Imaginários e o Isolamento Social no Japão

Solidão nunca foi tão perigosa para educação de uma nação

 

Solidão é um sentimento complicado. Todos nós já sofremos muito com ele, de alguma forma, alguns ainda sofrem, outros muito menos, mas todos sabemos bem do que se trata, e não há nada melhor, nesse contexto, do que um amigo que nos entende e se importa com a gente, alguém com quem passar o tempo, conversar, se divertir, de forma a fortalecer nossa personalidade, especialmente na adolescência, e mais tarde naturalmente por pura e simples manutenção da nossa sanidade, afinal, embora viver sozinho seja uma opção, sua viabilidade é outra história. No mundo anime não é diferente, vemos muito da vida dos personagens que, por um momento passaram pela questão, mas que conforme suas interações com amigos progridem, sua solidão embaça cada vez mais, e partir daí é que conseguimos vislumbrar suas realizações como personagem anime. 

 

 

Em Chuunibyou koi ga Shitai, Rikka Takanashi supera sua solidão e se encontra quando conhece um garoto que sofreu coisas parecidas as dela, sua amizade a ajuda a decidir o papel que desempenhará em sua vida. Em Natsume Yuujinchou, Natsume encontra, no amor por seus novos pais e amigos, após uma infância devastadora e caótica, compaixão e respeito pelas almas que o cerca e que tanto odiou em sua vida desafortunada. Em Bleach, Uryu Ishida foi capaz de desenvolver suas habilidades e fazer parte de algo grandioso, tudo por causa da aceitação e tolerância entre seus amigos do grupo de Ishigo. Entretanto, o que acontece com aqueles que não conseguem passar por cima da solidão e dar o passo para fora de casa e confrontar seus medos com outras pessoas?

 

 

No Japão, este problema vem crescendo cada vez mais. Segundo o Ministro da Educação, muitos estudantes largam a escola por simplesmente não conseguirem fazer amigos ou encontrar uma resposta para seus medos sociais. Os números são assustadores, cerca de 31.000 estudantes largaram os estudos (cerca de 30% do total de alunos no continente em 2012), alegando serem incapazes de continuar a enfrentar um dia a dia de escola por falta total de motivação.

 

Estudantes, de modo geral, têm seus problemas a enfrentar quanto decidem encarar a vida acadêmica. Universitários sofrem com a falta de uma sala de aula estável para o desenvolvimento linear e continuo, e ainda precisam conhecer seus colegas de trabalho para desenvolverem juntos seus temas dissertativos. Muitos não conseguem criar essa ponte e acabam passando a maioria do tempo sozinhos, e como os outros alunos também sofrem com o problema a sua maneira, acabam por deixar a situação como está, o que apenas piora ainda mais as coisas. Quanto mais uma pessoa se isola mais difícil fica para os outros se aproximarem, o que perpetua a solidão para um tempo indefinido e perigoso. 

 

 

Em Neon Genesis Evangelion, Shinji atinge o ponto limite em que seria capaz de lidar com toda pressão sobre seu passado, seu trauma sobre a distância em que vive de seu pai, e sofre o real drama do isolamento e a crueldade dos que o rodeiam. Mesmo ainda as heroínas da comédia romântica Fruits Basket e Gakuen Alice sofre bully de seus colegas de classe, mesmo que suas personalidades carismáticas sejam o ponto de quebra do ciclo vicioso dessa depressão.

 

 

No Japão, a natureza coletivista da sociedade impõe mais desafios àqueles sofrem do problema do isolamento social, sentem muito mais peso em seus ombros comparados às outras nações. Desde a necessidade de fazer com que seus pais se orgulhem de seu desempenho escolar, e quando falham precisam encontrar um meio de viver com essas expectativas frustradas, o drama da inferioridade começa a corroer; até quanto ao sexo oposto, numa sociedade onde à mulher lhe é incutida uma ideia de submissão, as mulheres japonesas sofrem para lidar com seus sentimentos, precisam criar uma imagem, uma identidade para si mesmas através do casamento e da família, a busca pelo par para desenvolvimento pessoal passa a ser visto como um tipo de esporte sombrio, e a competitividade, provoca danos emocionais conforme a disputa prossegue. Lembramos da série mangá Tramps Like Us (Kimi wa Pet), levando para o lado profissional, onde mulheres de sucesso se tornam alvo por chegarem a posições de destaque. 

 

 

Os indivíduos sofrendo a questão do isolamento social, em sua maioria, precisariam apenas encontrar a confiança interior para dar o primeiro passo, mas a falta de amigos é o fator determinante que impossibilita a quebra do ciclo, em algum momento a dificuldade de se fazer amigos ocorreu e não foi trabalhada da forma como deveria, o indivíduo cresce com o problema e a sociedade é conivente, incapaz de enxergar o estrago social futuro em si mesma ao permitir tais indivíduos de prosseguirem em seu drama cíclico. O que surge em nossa era digital, assim, são os ambientes virtuais, onde escondidos por trás de imagens e pseudônimos, encontram a “força ilusória” para quebrar o ciclo e fazer amizades, sem perceber que o ambiente virtual não é real, e portanto é ilusória quanto a quebra do ciclo, ou seja, o indivíduo engana-se para sobreviver ao seu próprio tormento e justificar a própria solidão com seus amigos virtuais.  

 

 

Outro fato do desenvolvimento da sociedade japonesa, quanto ao isolamento social dos indivíduos, é o “alugue um amigo”, uma forma de se conseguir uma pessoa, pelo preço adequado, para ir com você a um evento social qualquer ao seu desejo. O amigo contratado precisa apenas de algumas informações básicas para dar aquele apoio e moral ao contratante, e isso vem criando uma industria assustadoramente lucrativa, levando-nos a pensar no mundo literário de Isaac Asimov – Caça aos Robos, em que os indivíduos viviam quilômetros de distância um dos outros (pois tinham nojo uns dos outros, e não podiam nem ao menos compartilhar mesmo ar), e havia cerca de 200 robôs para cada ser humano, principalmente nas áreas rurais, em vilas auto suficientes, de forma que um ser humano jamais precisasse encontrar outro. 

 

 

Frente ao caos social que se instala para com as futuras gerações, as universidades começam seus programas de introdução de calouros, naturalmente obrigatórios, de forma a quebrar o gelo e dar aquela força aos solitários. Os isolados já deixaram de ser vistos como esquisitos ou retardados emocionalmente, já não precisam viver sobre o medo de bullying, entretanto, o problema ainda é gravíssimo nas escolas, onde os alunos dificilmente conseguem achar o ambiente seguro para si mesmos. A questão se arrasta pela escola e pode ser aliviada na vida adulta quando atinge à universidade, mas até lá, muito estrago se faz nas mentes desses indivíduos, e muitos deles, como dito no início da matéria, decidem largar a escola.

 

 

 

 

Um estudante japonês que superou essa fase caótica da vida diz que “quando se acostuma a viver na solidão, não existe nada mais confortável”, e o ponto que ele faz aqui é importante: o indivíduo encontra a saída errada para uma frustração social, e se acostuma com ela. Essa sensação de segurança no isolamento é o que torna tudo muito mais difícil para o mesmo de se superar e encontrar seu caminho. 

 

A sociedade japonesa vem mudando, e o governo vem percebendo o quanto pode ser danoso para o futuro permitir que esse problema social continue a fazer com que as crianças larguem as escolas, e seu esforço quanto a isso é notório, programas contra bullying, depressão, falta de conforto no ambiente escolar, e o próprio isolamento em si, vem sendo tomados com seriedade e levados a tratamento individual. Embora a sociedade preste os meios, para que o indivíduo de fato supere a questão é necessário que ele se ajude, e como dizia Shiiba em LIFE: “O futuro não será diferente até que que eu me torne diferente”. 

 

 

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Datatsushi é redator da CrunchyNotícias para a Crunchyroll.pt e é apaixonado por anime, comida japonesa e cultura asiática. Acompanhe seu atual projeto no youtube Drag-On Dragoon 3 e seus outros vídeos.  Você também pode segui-lo no Twitter @_datatsushi_

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