[Opinião] Mangá é literatura? De jeito nenhum!

Nenhum quadrinho é, mas está tudo bem (ou deveria estar)

Pra estrear aqui na redação, resolvi trazer um assunto que vejo por aí sendo discutido e também é por vezes tema de debate acadêmico: se quadrinhos, e por consequência mangás também, são ou não um tipo de literatura. A minha resposta é curta e grossa, mas a reflexão que chega até ela talvez seja um pouco mais interessante.

 

Primeiro, vou deixar claro o que defino como literatura: uma forma de expressão escrita prestigiada pelo seu mérito estético ou estilístico (também podendo ser chamada de arte literária nesse sentido). Isso ao menos segundo o Dicionário Priberam, não tenho qualquer formação ou conhecimento em Letras que me permita questionar essa definição, então vou adotá-la como um consenso da área mesmo sob o risco de não ser.

 

Os quadrinhos são frequentemente descritos como “sub-literatura” ou “para-literatura”, texto escrito com pretensão de ser literário mas não considerado como tal, muitas vezes por sua suposta baixa qualidade. Isso ocorre tanto no meio acadêmico (geralmente em outras áreas de estudos) quanto fora dele, não é tão incomum assim ouvir até mesmo consumidores de quadrinhos defendendo a importância das obras pelo “potencial educacional” de “ensinar e incentivar o gosto pela leitura em crianças”, o que as estimularia posteriormente a ter interesse pela literatura. Vocês percebem a armadilha desse raciocínio? A utilidade social dos quadrinhos, uma “para-literatura” infantil, fica subordinada à importância da “alta literatura”. Uma vez que a criança já sabe ler e gosta dos “bons” livros, os quadrinhos não são mais úteis e devem ser abandonados. Não quero dizer aqui, é claro, que quadrinhos não tem serventia educacional, pelo contrário, acredito que podem acrescentar muito à formação, mas não como uma categoria subalterna à literatura, até porque eles não são literatura nem para-literatura, ao menos na minha visão (mas essa questão ainda é alvo de debates).

 

mangas usp

 

Para Groensteen (2009), acadêmico francês na área de quadrinhos, as únicas coisas em comum entre eles e a literatura são a presença de elementos textuais e o fato de serem tradicionalmente impressos e vendidos em livrarias. Fora isso, são duas coisas totalmente distintas. Mas, o que são exatamente os quadrinhos? Harvey (2009), cartunista e acadêmico americano na área, os define como narrativas ou exposições pictóricas nas quais as palavras geralmente contribuem para o sentido da imagem e vice-versa (a definição de quadrinhos também é alvo de debates). Assim, diferente da linguagem literária, eles possuem elementos visuais não-verbais e, pode não parecer, mas isso muda tudo. Por quê? Porque nesse caso a justaposição entre desenho e escrita cria uma nova forma de linguagem.

 

Por serem (frequentemente) complementares, é necessário ler os elementos visuais e verbais juntos para entender o que ocorre na cena ou história − Schwartz e Rubinstein-Ãvila (2006) chamam isso de “multimodalidade”. Com isso, a experiência estética de ler quadrinhos não é a mesma de ler um livro ou olhar um quadro pois as emoções serão evocadas pelo texto, pela expressividade das imagens e também por aquilo que é produzido no encontro desses dois elementos, a forma como eles se organizam também afeta o leitor de maneira que, isolados, nenhum dos campos conseguiria fazer. Cria-se um novo elemento que parte simultaneamente dos dois anteriores mas escapa a eles, indo para além de ambos – é por isso que é uma outra linguagem, porque há algo que existe entre a linguagem de cada um dos “mundos” e não pertence exatamente a nenhum deles.

 

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Portanto, assim como o desenho nos quadrinhos é diferente de uma pintura do Van Gogh, sua escrita também difere de um Machado de Assis, não por causa da qualidade, mas sim por possuírem propostas diferentes. Talvez, por vivermos numa sociedade que diminui a importância de elementos não-verbais frente à linguagem escrita, nosso ímpeto seja de considerar uma produção multimodal como gênero textual, além, claro, do peso cultural que a literatura tem como forma de arte, que traria uma enorme legitimação social para os quadrinhos caso fossem reconhecidos como tal – é provavelmente nessas que surgem termos como “graphic novel” (se é uma novel, ou seja, um romance, é literatura… né?), que nada mais é que um nome pedante para tentar dar aquela valorizada no produto. Graphic novel não é nenhum “gênero”, é só um quadrinho encadernado com mais capricho e mais caro (geralmente).

 

Mas, se não são literatura, o que são?

 

gintoki

 

Bem, são… quadrinhos. Como já dito acima, uma forma própria de linguagem, com suas especificidades e independente da literatura. Assim, na minha visão, eles devem ser considerados por critérios próprios que considerem as particularidades dessa linguagem e devem também conquistar seu espaço na sociedade como a mídia híbrida e independente que são, sem ficar submissos aos parâmetros literários.

 

Outra coisa que gostaria de pontuar sobre quadrinhos/mangás é a reprodutibilidade e acessibilidade da mídia. Essas não são obras de museu, elas têm intuito comercial. Falando de mangás especificamente, a história da produção deles no Japão vem desde uns 1000 anos atrás com os emakimonos (narrativas com figuras e textos feitas em rolos, para serem lidas conforme vai desenrolando o papel, uma delas foi animada aqui). Mas é no pós-guerra que tudo começa a tomar a forma que tem hoje, quando eram vendidos em livros baratos de capa vermelha, os akahons (e com uma mãozinha do Tezuka também, que sequer queria ser cartunista). Ou seja, é em cima da impressão barata, acessível, que toda a indústria de mangás vai se montando até ir se imbicando com a de animação (inicialmente de baixíssimo custo também) e virar o que é hoje – inclusive, as revistas de mangá chegavam a oferecer alguns pequenos compilados de graça na briga por assinantes, foi esse tipo acessibilidade que fez dos mangás um entretenimento tão viável, ainda mais quando TV era coisa para poucos. A história dos quadrinhos nos EUA é diferente, a popularização vem mais por meio das tirinhas de jornais mas também inclui um modelo barato e massivo de distribuição, além do interesse dos jornais em comercializar quadrinhos ao perceberem que isso dava um diferencial no número de vendas.

 

emakimono

 

Aqui no Brasil também temos um exemplo de como a impressão barata é um grande impulsionador dos quadrinhos. Quando os mangás começaram a ser vendidos no começo dos anos 2000, eles desbancaram as HQs americanas. Baixo preço é um dos fatores que Sidney Gusman (2005) apontou como importante para isso, na época os quadrinhos vindos dos EUA estavam presos a um mercado nichificado, de colecionadores que pagavam caro pelos produtos, e também por isso incapazes de captar um novo público e aí os mangás vieram as bancas a preços bem mais módicos e com ajuda do sucesso dos animes na TV.

 

Isso, claro, não quer dizer que edições caras e caprichadas não possam exisitr, mas elas só são possíveis dentro de um mercado estabelecido pois precisam de um público pré-existente (e pra ter “êxito” como modelo, precisam de um público grande), ao menos dentro do modelo econômico que vivemos. Mas eu acredito sinceramente que o fator comercial é intrínseco à mídia. Quadrinhos nascem dentro da lógica de ter vendas em alta tiragem, o que muitas vezes vai resultar em impressões de baixa qualidade, e vão se desenvolvendo assim, porque essa é a forma mais eficiente de expandir público, ao menos quando não existem outros tipos de facilitadores ou incentivos. Não acho que qualquer reduto de quadrinhos consiga se manter direito fora disso. E não tem nenhum problema, afinal, por que para ser bom não pode ser comercial?

 

Por aqui encerro tudo que tinha para dizer nesse #textão: quadrinhos não são literatura, são uma outra linguagem, e também são uma mídia que nasce atravessada pelo fator comercial, o qual acaba de certa forma fazendo parte dela.

 

Ufa! Ficou longo… mas e você, o que acha disso tudo? Deixe sua opinião aí nos comentários!

 

ATENÇÃO: As opiniões expressas nesse artigo são de inteira responsabilidade da redatora e não refletem a opinião da Cruncyhroll.


 Referências:

  • Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Disponível em < https://dicionario.priberam.org/ >. Acesso em dezembro de 2018.
  • Gusman, S. (2005). "Mangás: hoje, o único formador de leitores do marcado brasileiro de quadrinhos". Cultura pop japonesa: mangá e animê. São Paulo: Hedra, 79-84.
  • Harvey, R. C. (2009). "How Comics Came to Be: Through the Juncture of Word and Image From Magazine Gag Cartoons to Newspaper Strips, Tools for Critical Appreciation plus Rare Seldom Witnessed Historical Facts". A Comics Studies Reader. 25-45.
  • Schwartz, A., & Rubinstein‐Ãvila, E. (2006). "Understanding the Manga Hype: Uncovering the Multimodality of Comic‐Book Literacies". Journal of Adolescent & Adult Literacy, 50(1), 40-49.
  • Groensteen, T. (2009). "Why Are Comics Still in Search of Cultural Legitimation?". A Comics Studies Reader. 3-12.

Imagens © Marcos Santos/USP Imagens, Akira Toriyama // Hideaki Sorachi, Shueisha, Sunrise/Gintama Parterns // Marubeni Group/Studio Ghibli

perfilLaura é redatora de notícias para a Crunchyroll.pt e graduada em Psicologia pela USP, fazendo iniciação científica sobre mangá durante o curso. Querm conhece de outras bandas, sabe que já escreveu um texto refletindo ao que serve a discussão de mangá ser ou não arte. Para surtos e reclamações mais pessoais, o Twitter é @gasseruto.

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