[Coluna] Ômega foi o melhor spin-off de Cavaleiros do Zodíaco já criado pela Toei

Não, Saint Seiya Omega não é tão ruim quanto você pensa

Desta vez, na minha coluna quinzenal, vamos falar de algo velho porém relativamente novo: Cavaleiros do Zodíaco - Ômega. Não é novidade para ninguém o meu amor por Saint Seiya, e nem minhas opiniões um pouco "polêmicas" sobre a franquia, nas quais incluo: Ômega foi uma empreitada boa da Toei, com diversas inserções que, inclusive, inspiraram outros autores de derivados da franquia. Mas, mais do que isso: de todas as novas animações de 2012 para cá, essa foi, sem dúvida, a melhor renovação da série.

 

Ômega foi parte do "presentão de aniversário" pelos 25 anos da franquia e começou a ser exibido nas TVs japonesas em 2012, aos domingos, às 6h30 da manhã. Apesar de frequentemente apontada como um "flop colossal" pelos fãs aqui, onde a série realmente teve uma considerável recepção negativa, a animação rendeu duas sagas, ficando no ar por praticamente dois anos seguidos (foram 97 episódios no total).

 

saint seiya omega cdz

 

É o spin-off da franquia com mais episódios, perdendo apenas para os 114 do anime de 1986. Se esta série não foi um sucesso absoluto, certamente também não foi um fracasso retumbante  afinal, nenhuma animação segue firme na produção durante tanto tempo se apenas traz prejuízo.

 

Agora que já sabemos que Ômega foi uma série com algum considerável sucesso comercial, vamos ao que realmente importa: a renovação da franquia. Sem muito medo de ousar, mas ainda tentando manter um certo apelo aos fãs mais antigos, a série se passa em 2012, abordando novos protagonistas (incluindo o novo cavaleiro de Pégaso) e mantendo os "personagens clássicos" como figuras importantes de um passado próximo. Aí temos Kouga, o principal, sendo criado por Saori Kido enquanto o mundo passa por um período de "avanço das trevas", causado pelo deus Marte.

 

kouga saori omega

 

A série surpreende a todos mostrando que é possível repaginar Cavaleiros para o público mais novo sem precisar utilizar o elenco de sempre ou cavaleiros de ouro como muleta, contendo aparições pontuais da turma do Seiya, longe de roubarem a cena dos protagonistas da série. Dos novos cavaleiros de bronze, Soma e Yuna são dois grandes destaques, sendo, de longe, os personagens mais carismáticos da série. Kouga pode não ter o mesmo charme, mas funciona bem como protagonista e é suficientemente afastado de Seiya para ter personalidade própria. Apesar de deixarem a desejar em alguns pontos, Aria, Éden, Ryuho e Haruto são minimamente trabalhados e possuem seus conflitos internos interessantes.

 

Até mesmo os vilões têm seu carisma. Durante a saga de Marte, dou grande destaque à Sônia, sem dúvidas a mais interessante dos marcianos, apesar de não ser uma final boss. A Sônia é daquelas antagonistas com conflitos que fazem você se importar com ela. O próprio Marte não é um personagem raso, tendo motivos para agir como age e a Medeia só peca na finalização do arco (fora isso, é, de longe, das melhores vilãs da franquia). Apesar de, durante a primeira temporada, um mote próximo ao que já vimos anterormente a franquia, temos vilões com carinha de originais e trabalho de personagem mais interessante que muitos vilões "canônicos".

 

sonia mars seiya

 

Na saga de Pallas, vemos uma deusa que não veio simplesmente brigar pela escritura da Terra: Pallas, na verdade, só quer ver Atena sofrer enquanto seus cavaleiros morrem em mais uma guerra. Gostando ou não, é uma inovação interessante, que tira a série daquele velha história de um deus qualquer querendo se apossar da Terra e/ou castigar os humanos. A deusa Pallas tem uma rixa pessoal com Atena, ela não está nem aí para a Terra ou a vida humana. 

 

O roteiro da série não é nenhuma grande proeza, mas, sinceramente, viradas tão mirabolantes nunca foram essenciais nessa franquia. Shun ser Hades é um grande plot-twist do original, mas mesmo essa inovação é resolvida de maneira simples (no fim das contas, quase não faz diferença) – mesmo assim, em ambas sagas, há um virada no final para tentar surpreender o espectador. De quebra, a história ainda resgata os cavaleiros de aço na segunda temporada, uma inserção da Toei no anime clássico que sempre soou mais estranha pela forma como foi descartada do que pela ideia em si, dando a eles uma função e motivo de existir.

 

subaru

 

Mas, eu sei, vocês querem ver a série  pelas lutas (e as armaduras, para comprar boneco). Bom, Ômega certamente nos fornece bons momentos de ação, como a luta do Kouga contra Éden, Ryuho contra Paradox, a luta contra Apsu e, porque não, Seiya lutando contra Titan, são alguns exemplos de momentos marcantes durante os quase 100 episódios.

 

Outro fator do anime original que Ômega faz questão de manter é o melodrama. Vocês podem até tentar, mas é impossível dissociar Cavaleiros do melodrama digno de novela construído pela Toei (o mangá é mais "seco"). A produção sabia disso e se tem uma coisa que essa repaginação é boa, é em reviver o espírito melodramático do clássico. Sim, se você assiste a franquia esperando uma novela, aqui tem um deliciosa para assistir. Uma boa parte desse melodrama talvez seja a trilha sonora, que sabe transmitir emoções ao público.

 

As mudanças na série afastaram, logo de cara, muita gente: designs de armaduras bem diferentes dos originais, pingentes, escolinha, elementos, Torre de Babel. Nem todas as inserções casam muito bem com a "mitologia" já construída pela série. Para mim, apesar de elementos serem presentes no original, com ataques com gelo, fogo ou vento, é estranho isso, de repente, ser um fator de força/fraqueza (embora exista uma explicação), sendo a novidade mais esquisita de todas. Ainda assim, aprecio a ousadia de inserir conceitos novos sem muito medo. Até porque, os piores momentos da série são quando ela tenta "copiar" o de sempre: as 12 casas de Marte, por exemplo, são um sufoco.

 

jabu soma

 

Apesar da cara feia de muitos, a bem da verdade, algumas outras obras posteriores têm um pézinho na série: pingentes já se tornaram lugar-comum nas novas obras, a escolinha em Saintia Sho certamente se apoia na Palaestra (aliás, ouso dizer que muita coisa de Saintia sai de Ômega), a "máquina de estoque de cosmo" provavelmente é uma repaginação da Torre de Babel, e até mesmo a continuação "canônica", Next Dimension deixa uma pequena homenagem a Ômega dando um filho (adotivo) para o Shiryu.

 

Pode não ser a melhor criação da Toei, nem a melhor série da franquia, mas Ômega faz importantes renovações, além de reaproveitar de maneira interessante elementos da série original, se preocupando em fazer um roteiro minimamente coeso. É mais criativo que reciclar o plot de Asgard com luz dourada ou fazer uma adaptação de mangá utilizando cavaleiros de ouro como a verdadeira muleta para venda de bonecos. Talvez, a maior lição que aprendemos com Kouga & cia é que a franquia tem muito a oferecer quando solta a mão do "de sempre" e se permite trazer novidades sem tanta preocupação.

 

Se você nunca viu, ou quer dar uma segunda chance para essa série, você pode checá-la aqui, com legendas em português! Mas, cuidado, você pode descobrir que também gosta desse anime.

 

E você, o que acha de Saint Seiya Omega? Conte para a gente nos comentários!


 


perfilLaura é mestranda em Letras na USP, colunista na Crunchyroll.pt, redatora no JBox e eventualmente também escreve no Medium. Entrou nessa de desenhos japoneses por causa de Cavaleiros do Zodíaco e está aí até hoje. Para surtos e reclamações mais pessoais, o Twitter é @gasseruto.

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