RESENHA: O recomeço e a redenção de Subaru em Re:ZERO -Starting Life in Another World-

Através de um protagonista falho e com pouquíssimas qualidades, aprendemos a valorizar quem somos, as pessoas que se importam conosco e a aproveitar segundas chances

 

Antes de começar assistir a Re:ZERO -Starting Life in Another World-, eu tinha uma noção muito superficial sobre a série: um jovem socialmente desajustado vai parar em um mundo paralelo com elementos de fantasia, com a diferença que toda as vezes que ele morre, acaba retornando a um determinado ponto para tentar novamente e impedir sua morte. Quando comecei a ver, constatei que não estava de todo errado, porém este anime é muito mais do que isso e, ainda que possua qualidades na animação bem nítidas desde o começo, há muitas outras que não vemos em um primeiro momento, além de outras questões que vamos visitar e revisitar ao longo desta resenha. Ressalto desde já que essa resenha possui spoilers leves, especialmente dos episódios 18 e 29 que serão o nosso foco principal.

 

A série em anime produzida pela White Fox que adapta a série de light novels escrita por Tappei Nagatsuki e ilustrada por Shin'ichirō Ōtsuka é realmente primorosa, tanto na parte técnica como na forma de conduzir a narrativa. É perceptível o valor da produção na sua animação e na preocupação em usufruir o máximo de tempo que dispõe. Não é incomum episódios durarem mais do que os 24 minutos comuns à maioria dos animes transmitidos na TV japonesa. Especialmente na segunda temporada, onde o padrão é quase todos os episódios durarem praticamente 30 minutos, dispensando o uso de aberturas e encerramentos (salvo raros episódios).  O anime faz um excelente uso desse tempo extra para levar sua história sem pressa, podendo desenvolver cada um dos personagens-chave com muito cuidado e de maneira a prender o espectador que, quando se dá conta, o episódio já acabou sem que tivesse percebido!

 

 

Apesar de todas essas qualidades bem perceptíveis, algo que me desagradou bastante em um primeiro momento e que constatei ser quase um senso comum nas pessoas que assistem à Re:ZERO pela primeira vez: o protagonista. Subaru Natsuki é alguém difícil de se criar simpatia. Ele é escandaloso, covarde, fraco, mal-encarado, fica criando uma imagem pessoal muito maior do que ele de fato é e, sob certa extensão, não é a pessoa mais inteligente do recinto. Alguém que inicialmente se gabava de entender como um mundo de fantasia funciona, acaba morrendo de maneira decepcionante ao ser esfaqueado em um gueto qualquer por um bando de ladrões.

 

Por quais motivos Re:ZERO se tornou tão popular, tendo um protagonista com quase nenhuma qualidade? Seriam as qualidades da animação e de direção narrativa que listei mais acima? Seriam os outros personagens que carregam a história? A resposta é: tudo isso, mais algumas outras coisas e, acreditem, o Subaru também.

 

Diferentemente da maioria dos anime isekai que carregam um viés cômico, Re:ZERO é extremamente brutal, a começar pelas mortes que Subaru passa. Elas por si só são horríveis, mas o pior é todo o processo que leva a elas. Há situações que ele não morre de imediato: ele sofre e agoniza por um bom tempo antes de retornar ao ponto anterior. Não é apenas Subaru que fica com receio de morrer novamente, mas nós que estamos assistimos começamos a temer por qualquer coisa que venha a se desdobrar naquela história, pois constantemente somos levamos a becos na narrativa que resultam na morte de Subaru e das pessoas que o cercam.

 

De início queremos que ele assimile logo esse poder que possui como uma habilidade vinda de em um videogame, trate cada morte como uma oportunidade para recomeçar e tente o desafio de novo sem precisar ficar melindrado, ou mais irritado e consequentemente mais insuportável com outros personagens. Mas não é assim que as coisas funcionam. Este mundo que Subaru está não é um jogo, indolor e inconsequente.

 

 

Subaru sente cada uma dessas mortes, que o afetam de forma traumática, especialmente seu psicológico. Fica visível aos espectadores como é sofrido todo esse processo e o pior: ele não pode contar a ninguém da sua condição, que resulta em um desdobramento terrível na primeira vez que ele tenta. É agoniante e perturbador você passar por uma experiência mortal, saber as coisas acontecerão no futuro próximo e não poder explicar o porquê. Você será visto como um esquisito e maluco por todos.

 

Na primeira temporada do anime, acabamos passando por diversas situações diferentes antes de chegarmos no clímax da temporada que gira em torno em matar um monstro que se tornou um grande problema para aquele mundo, uma problemática na qual Subaru se vê encurralado. Ele não consegue encontrar uma saída ou uma solução para esse problema. Além de toda a frustração, some todas as mortes agonizantes que ele passou e que gradativamente iam minando a sua determinação e afrouxando os relacionamentos com os demais personagens da série. Em determinado momento que ele chega ao fundo do poço, quebra e desiste.

 

 

É aí que chegamos no episódio 18 que considero o melhor episódio da primeira temporada. Nesse episódio, Subaru tem uma longa conversa com Rem sobre a ideia de fugirem daquele país, de todos aqueles problemas e intrigas que eles se envolveram e irem viver suas vidas a sós e felizes. É nesse momento que Subaru se abre para alguém e reconhece o que todos nós já sabíamos. Todos os defeitos, podres e tudo o que o tornava um personagem difícil de aguentar, ele mesmo toma ciência disso e isso o deixa muito desamparado e abalado. Ao ouvir isso, Rem, que é alguém que rapidamente cria afinidade e um forte sentimento pelo nosso desajustado aqui, comenta sobre uma vida que ela vive sonhando em ter com Subaru: dos dois vivendo juntos, conseguindo um trabalho, comprando uma casa, tendo filhos... Ela comenta isso com muita ternura e de coração aberto e começa a levantar as qualidades que nem o Subaru conseguia de fato ver em si, e o que o torna o seu herói e do que faz dele uma pessoa tão querida por ela.

 

Isso é algo que podemos acabar ignorando ou desmerecer, mas mesmo com todos os defeitos, é um fato que o Subaru fez muito por essas pessoas e que verdadeiramente mudou a vida da Rem e ela começou a ver as qualidades e virtudes dele, mesmo estando tão escondidas e distantes em meio ao desespero atual.

 

Em outros animes, quando um personagem é um asco e com muitas falhas, a obra tende ou amenizar isso ao longo do tempo, ou simplesmente ignora e continua seguindo com esses arquétipos. É bem raro o próprio personagem reconhecer todas elas, se arrepender e ainda trabalhar em cima delas para desenvolver seu personagem.

 

É através da acalentadora conversa com a Rem que Subaru consegue o conforto e a motivação de tentar salvar a todos novamente

 

Algo que torna o episódio 18 tão especial não é apenas esse reconhecimento feito pelo próprio Subaru, mas a conversa tocante que ele tem com a Rem é muito sincera e que o ajudou a sair desse poço de desespero, lhe deu novamente a motivação e a esperança de tentar de novo. O que se segue até o fim desta temporada é uma sequência de ações extremamente empolgantes que visa no extermínio da baleia branca.

 

Ao término dessa temporada, o Subaru não chega a mudar da água para o vinho. Ele continua fazendo seus comentários fora de hora e ainda sem entrar em sintonia com este mundo, mas ele teve um grande amadurecimento e um reforço de suas convicções, que no começo parecem ser só desvaneio de um otaku meia boca e se tornam algo mais concreto.

 

 

E assim chegamos na segunda temporada. Apesar de focar em uma ou duas problemáticas apenas, ela aproveita a oportunidade para mostrar o passado de diversos personagens secundários e assim descobrimos o porquê de eles agirem como agem e estarem presos na situação em que se encontram. Digo até que personagens que na primeira temporada pareciam ser apenas uma caricatura, aqui ganham mais profundidade e se tornam verdadeiramente fascinantes para a história.

 

Novamente o anime conduz com maestria a narrativa ao intercalar momentos vividos no passado com a situação atual. Ele ainda consegue a proeza de nos dar mais informações sobre este mundo, quando somos efetivamente apresentados às famosas bruxas.

 

Nesta temporada, Subaru assimila um pouco melhor seu poder de retornar da morte, até a tratando como em um jogo de videogame que, diante das problemáticas dessa temporada, ele não vê problema em simplesmente morrer para recomeçar por uma rota alternativa. Não tarda muito e este mundo mostra para ele que não deve agir de maneira tão leviana. Em determinado teste, ele é confrontado pelas realidades paralelas que deixou de lado ao morrer e vemos os desdobramentos de suas mortes e como isso afetou as pessoas que ele deixou para lidarem com sua morte. Foi uma boa forma de ensinar a ele que não se deve buscar a melhor rota a todo custo (nessa mesma temporada vemos um personagem que representa bem o que significa se abdicar da sua moralidade por uma finalidade).

 

 

No episódio 29 (o 4º desta temporada), Subaru acaba entrando em um dos testes criados por Echidna, a Bruxa da Ganância. Nesse teste, Subaru se vê de volta à sua vida passada, junto com seus pais e vivendo um dia normal. Aqui sabemos em primeira mão o passado do protagonista, como foi sua infância e adolescência que o levaram a se tornar um hikikomori, como são denominadas as pessoas no Japão que sofrem de uma grave reclusão social e se tornam extremamente reclusas. Mas especialmente, nesse episódio vemos como era a relação de Subaru com seus pais, que são retratados como pessoas verdadeiramente afáveis e com uma grande complexidade.  Não são pais idealizados por Subaru, e sim uma representação fidedigna das memórias que o garoto possui deles.

 

É nesse momento que Subaru possui uma conversa franca com os dois e faz as pazes com seu passado, além de ser mais um reforço para ele seguir em frente e enfrentar os desafios que o aguardam ao longo dessa temporada.

 

 

Os episódios 18 e 29 são essenciais para a série por representarem, respectivamente, o ponto de virada e a revelação do passado de Subaru. São episódios verdadeiramente tocantes e com muito zelo em tratar assuntos delicados, que requerem muito tato para não deixar tudo convoluto ou forçado. Apesar dos momentos mais descontraídos aqui e ali no episódio 29 para quebrar o gelo, os pais do Subaru não são caricaturas ou fantasias. Eles verdadeiramente amam seu filho e procuram ajudá-lo nesse período complicado da vida dele de maneira até bastante realista.

 

Na verdade, Subaru Natsuki é a peça-chave para que as mudanças aconteçam naquele mundo, a peça fora do tabuleiro que, sem ela, certamente todos os personagens que hoje o circulam teriam um destino terrível. Não falo apenas da sua habilidade que o permite deslumbrar diversos futuros alternativos até “acertar” a rota em que o máximo de pessoas consegue sobreviver, mas sua presença mudou a vida de todos de alguma forma, algo que fica bastante evidente com a conclusão da segunda temporada. Ao longo do anime, começamos a perceber que os personagens daquele mundo estão presos, seja por contratos, promessas, vícios ou até pelo próprio medo. Elas ficaram imóveis e com receio de ousar darem um passo adiante. Sem um elemento externo como Subaru, certamente um desfecho mortal estaria aguardando por essas pessoas nesse mundo cheio de perigos e extremamente impiedoso.

 

O anime reforça constantemente como ele é o elemento estranho nessa história. Ele não fala como os outros personagens, os comentários sem graça dele são vistos com estranheza por todos e, mesmo nos diálogos mais sérios ou dramáticos, ele está quase sempre usando o seu tradicional moletom para divergir ainda mais com os demais personagens daquele mundo. É exatamente essa distinção que o Subaru traz e nas decisões que ele toma que desencadeiam uma série de acontecimentos e mudanças nas vidas da Emilia, Rem, Ram e todos que possuem algum laço com o jovem desajustado.

 

É difícil não sentir uma certa dissonância quando rola cenas sérias em Re:ZERO com Subaru trajando seu moletom surrado, e tudo isso é proposital

 

Ao longo dessas duas temporadas, não é como se Subaru tivesse saído do personagem mais insuportável para o mais amável da série, mas certamente, após tudo o que ele passa, ele é o que mais amadurece e ganha uma bela complexidade. A maioria dos protagonistas de animes costuma seguir uma cartilha básica de narrativa, como ele deve agir diante de determinadas situações e personagens e que decisões ele deve tomar para se tornar uma pessoa melhor. O caso do Subaru é bastante singular, pois ele é um personagem bastante complexo e com sua quantidade elevada de falhas. Não apenas isso, mas uma pessoa com sérios problemas que é jogada num mundo cheio de situações mortais e agonizantes.

 

É muito difícil para alguém ter motivação e seguir em frente sem ter uma forte convicção, ainda mais quando você é constantemente testado e pressionado, com todos os seus defeitos se tornando evidentes, começando a pesar e a lhe puxar para baixo. O anime de Re:ZERO tem um cuidado primoroso em mostrar que nesses momentos há pessoas que querem o seu bem e irão mostrar que você possui qualidades que nem você mesmo consegue ver. Que você já fez muitas ações virtuosas e bondosas que mudou para melhor a vida de muitos e trouxe felicidades para ela.

 

Está tudo bem se em algum momento nós já cometemos erros e atitudes mesquinhas como o Subaru, pois assim como ele podemos aprender com elas e tentar ser pessoas melhores, como uma chance de recomeçar do zero, sem nunca nos esquecermos pelo que passamos e daqueles que nos querem tão bem.

 

 


 

Você pode acompanhar a impactante história de Subaru Natsuki e como ele muda a vida de todos em um mundo paralelo no anime de Re:ZERO -Starting Life in Another World- aqui na Crunchyroll.pt, que disponibiliza as duas primeiras temporadas e os OVAs, tanto na opção legendada como dublada em português brasileiro.

 

 

Sinopse:

 

Natsuki Subaru, um adolescente comum, conhece uma linda garota de cabelos prateados vinda de outro mundo. Subaru quer ficar ao lado dela, mas o fardo que ela carrega é maior do que Subaru pode imaginar. Eles enfrentam o feroz ataque de monstros, traições, violência irracional... e, por fim, a morte. Subaru promete derrotar qualquer inimigo, qualquer destino, tudo para protegê-la. E assim, o pobre garoto sem poder algum obtém o "Retorno da Morte", uma habilidade única que permite ao usuário voltar no tempo ao morrer. Usando esse poder, o passado é perdido e as memórias são reescritas.

 

 

©Tappei Nagatsuki,PUBLISHED BY KADOKAWA CORPORATION/Re:ZERO PARTNERS

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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