ANÁLISE: Trilogia Shenmue e a jornada imersiva e vislumbrante de Ryo pelo Japão e China dos anos 80

Shenmue foi um jogo que marcou época por seus feitos técnicos que impressionam até hoje

 

 

No mundo dos videogames, há jogos que são lembrados até hoje pelo impacto que causaram na indústria, seja por feitos técnicos ou em seu design. Há títulos que ganham status de “cult” por conquistarem uma quantidade de fãs que preza pelo que esses jogos fizeram de maneira única e se tornaram seus favoritos. De todos esses jogos marcantes, Shenmue é um caso que merece uma atenção especial. Na época em que foi lançado, ficou conhecido como o jogo mais caro a ser produzido da história, com uma premissa de se tornar uma experiência jamais vista no meio digital e ganhou certa infâmia pela sua demora em entregar seu terceiro jogo. Em breve iremos embarcar em Shenmue: The Animation, a releitura da jornada de Ryo em busca de vingança em forma de anime. Mas antes disso, vamos conhecer um pouco a série de jogos originais, como foi concebida e o que há de tão único e especial em cada um dos três jogos de Shenmue já lançados.

 

Bastidores de Shenmue

 

Não é possível falar de Shenmue e suas origens sem falar de Yu Suzuki. O desenvolvedor começou a trabalhar para a SEGA em 1983, criando jogos para fliperamas que se tornaram grandes clássicos como Hang-On, Space Harrier e Virtua Fighter. Em 1994, Suzuki fez uma viagem até a China para realizar pesquisas in loco para o Virtua Fighter 2. Dessa viagem, ele tirou diversas inspirações que seriam a base para um novo projeto, que se iniciou em 1996.

 

Este projeto inicialmente seria um jogo de RPG de Virtua Fighter para o Sega Saturn, sendo o primeiro projeto de Suzuki para um console de mesa. Porém, com a vinda do Dreamcast, o próximo console da SEGA, este projeto sofreu uma grande mudança, cortando sua ligação com a franquia Virtua Fighter e sendo rebatizado de Shenmue.

 

Shenmue I (1999)

 

Algo que Shenmue deixa claro desde seu conceito inicial até o jogo lançado é o quanto este projeto era ambicioso para a época. Foi considerado o jogo mais caro já produzido, com uma equipe composta por aproximadamente de 200 desenvolvedores e um orçamento na casa dos 47 milhões de dólares. Esses números exorbitantes visavam um objetivo bastante claro: o primor pelo realismo e por uma experiência extremamente imersiva.

 

O que Yu Suzuki e sua equipe fizeram nos dois primeiros Shenmue era a recriação mais realista possível dos ambientes em que o protagonista Ryo Hazuki transita em sua jornada. Ainda que no primeiro jogo tenhamos um número limitado de locais a visitar (basicamente temos o dojo da família do Ryo, a sua vizinhança, o distrito comercial de Yokosuka e as docas), porém cada um desses locais é vasto e rico em detalhes. Cada ambiente foi criado sem a pretensão de se repetir. O jogo possuía aproximadamente 250 NPCs distintos, cada um com uma rotina diária, dividida em um ciclo de horas e até por dias da semana. O clima era dinâmico e podia alternar entre dias ensolarados, nublados, chuvosos e até com um pouco de neve. Suzuki prezava tanto pelo realismo que sua equipe fez uma pesquisa para saber as condições meteorológicas dos dias vivenciados por Ryo no mundo real! Sem falar no primor gráfico nos próprios modelos dos personagens, algo jamais visto em um console doméstico e que era um grande chamariz para o poder de processamento do Dreamcast da SEGA.

 

 

Os jogadores podiam ter uma noção do quão detalhado era o jogo já na sua primeira área: o dojo da família Hazuki e casa do protagonista Ryo. Cada cômodo era dividido como uma casa de verdade, podemos investigar cada centímetro quadrado dela e até vasculhar gavetas e armários em busca de itens e outros objetos para avançarmos na história.

 

Pode-se dizer que a recriação de um subúrbio japonês no primeiro Shenmue é muito bem-feita. Ainda que ambientado nos anos 80, pude sentir o mesmo clima que senti quando visitei uma vila interiorana japonesa durante meu intercâmbio cultural. A serenidade, um pouco da solidão e a beleza das ruas estavam lindamente recriadas.

 

 

Além do apreço visual e de detalhes, o jogo dispões de uma enorme variedade de atividades paralelas. Há diversos mini-games, incluindo versões emuladas de jogos que Yu Suzuki dirigiu no passado no arcade localizado dentro do jogo. É possível realizar pequenos serviços e até trabalhar de meio período nas docas para juntar uma grana e comprar itens consumíveis e outras coisas nas lojas espalhadas pelo distrito comercial (ou ser que nem eu e ficar torrando nas maquininhas de gachas que possui miniaturas do Sonic, lutadores do Virtua Fighter e outros jogos da SEGA). É possível até disputar corridas de empilhadeiras toda manhã antes do trampo nas docas!

 

Também há outro grande enfoque do jogo: as lutas. Se lembrarmos bem dos Virtua Fighters que Suzuki dirigiu, além de marcarem o pioneirismo dos jogos de luta em 3D, eram jogos focados no realismo dos golpes. Isso foi algo trazido para Shenmue, com cada golpe que Ryo aprende (e que podem evoluir se Ryo treinar bastante!) é dotado de uma fluidez impressionante e animações muito bem construídas e detalhadas. O maior diferencial é que normalmente as lutas em Shenmue ocorrem contra hordas de bandidos e malfeitores, precisando de um certo nível de cautela e estratégia para não acabar sendo cercado e levar muito dano. Em um nível básico, o jogador consegue se dar bem e progredir no jogo, mas caso você se dedique ao sistema de combate, poderá ver reações e combinações realmente impressionantes até para os dias de hoje!

 

Vindo do desenvolvimento de dois Virtua Fighter, Yu Suzuki e sua equipe aplicaram o que aprenderam de mecânicas de luta em Shenmue, com um inovador estilo de combate contra multidões

 

Até a forma como você progride na história é algo bastante pé no chão. Após a trágica morte de seu pai, a primeira coisa que Ryo faz é coletar pistas e o testemunho das pessoas na rua que viram os culpados e para onde eles iam. Nessas conversas o protagonista anota em seu caderno os principais pontos e quem ele deve procurar para obter mais informações, levando sempre para novos lugares e novas situações. Este caderno se torna um excelente guia para não acabar se perdendo ou se porventura o jogador venha a esquecer o direcionamento que lhe foi dado. Shenmue consegue ao mesmo tempo deixar o jogador livre para fazer o que quiser e dar um norte quando o jogador quer continuar sua história.

 

Além do enfoque na problemática envolvendo o assassinato do pai de Ryo, o primeiro Shenmue tem um espaço para trabalhar um pouco a questão de imigrantes no Japão. Como acabamos nos envolvendo com um cartel criminoso chinês, eventualmente Ryo começa a interagir com imigrantes do seu bairro e até começa a trabalhar junto com trabalhadores da doca, em sua maioria estrangeiros, que compartilham um pouco das dificuldades que é tentar se sustentar no Japão.

 

Tom é um americano que vende hot dogs na vizinhança de Yokosuka e que acaba ganhando a amizade de Ryo

 

Dito isso, é importante avisar desde já que tanto o primeiro, como o segundo Shenmue são jogos que são mais bem aproveitados quando não se está com pressa. Claro, você pode consultar detonados e ir correndo para concluir sua campanha principal, mas são jogos com um ritmo mais tranquilo. Diversas vezes eu me via concluindo todas as minhas obrigações no dia e com muito tempo de sobra até o dia seguinte para dar continuidade na história. Eu utilizava esse tempo extra para treinar no estacionamento do distrito comercial, ou perambulava e conversava com as pessoas da rua, ou jogava algum mini-game para me distrair e voltava um pouco depois das 21 para casa/hospedaria.

 

Shenmue II (2001)

 

Apesar de todas as possibilidades de exploração, o primeiro jogo de Shenmue se limitava a uma vizinhança e as docas da cidade natal de Ryo. Em Shenmue II, a jornada do jovem Hazuki finalmente segue para o oeste, rumo à China em busca do assassino de seu pai. Tanto para o nosso protagonista como para o jogador, os nossos horizontes iriam se expandir e muito.

 

É importante ressaltar que tanto Shenmue I como o II foram desenvolvidos ao mesmo tempo, por isso a janela de lançamento entre eles ter sido de apenas dois anos. Tendo isso em mente, não há mudanças significativas entre os dois jogos, com exceção das ambientações. Em Shenmue II exploramos principalmente duas grandes cidades na China: Hong Kong e a cidade murada de Kowloon. São áreas extremamente vastas, diversificadas e densas. Você se sente imerso nas movimentadas ruas de Hong Kong ou nas estruturas antigas de Kowloon. É nesse jogo que vemos os frutos das viagens de Yu Suzuki e sua equipe pela China.

 

 

Houve também algumas mudanças em termos de gameplay. Agora é possível comprar mini-mapas de cada distrito para lhe ajudar a não se perder (muito). Eles foram uma adição muito bem-vinda, considerando que no primeiro jogo as ruas eram bem diretas e definidas, em Hong Kong é cheio de becos e vielas e diversos bairros.

 

Nesta continuação, espere por mais momentos de perseguição, QTE’s (Quick-Time Events, onde o jogo pede que você aperte um botão específico para que Ryo realize uma ação para dar continuidade para a cena), combates e variedade de mini-games.

 

O sistema de combate é incrivelmente robusto e, conforme você utiliza determinada técnica, Ryo se torna proficiente nela, ganhando upgrades e até melhorias em suas animações.

 

Em termos de história, temos uma certa progressão em abordar mais sobre os mistérios envolvendo os espelhos que motivam as ações do antagonista Lan Di, um pouco do passado do vilão e como as ações de Ryo, motivadas unicamente pela vingança, afetam seus amigos e pessoas que ele conhece na sua passagem pela China.

 

Algo que é bastante impactante nesses dois primeiros jogos de Shenmue é sua trilha sonora. Certamente, é uma das suas qualidades mais impactantes, tanto quanto seu primor pelo realismo e mecânicas únicas. Suzuki e sua equipe poderiam ter focado em uma trilha de videogame mais tradicional, ou criar músicas que remetessem aos anos 80 e aos filmes daquela época, mas estamos falando de uma jornada épica de autoconhecimento e de artes marciais em sua essência. Decidiram seguir por uma trilha orquestrada e igualmente belíssima. Seja pelo seu tema principal ou músicas de ambiente e de combates, todas são de encher os ouvidos, de acalmar o coração mais vingativo e de despertar o mais valente dos guerreiros, quando a situação pede.

 

Shenmue III (2019)

 


Apesar de todos esses feitos técnicos e de premissa, os dois primeiros jogos de Shenmue não ganharam o reconhecimento imediato. O status cult veio em parte do que destrinchei mais acima, mas principalmente por uma questão que afligia muito dos seus fãs ao longo dos últimos anos: a história não terminava no segundo jogo, deixando um gancho para uma continuação... que nunca vinha. Some o orçamento exorbitante do projeto com o número baixo de vendas (em parte por terem sido lançados no Dreamcast que tinha uma base instalada de apenas 9 milhões de unidades, além do Xbox original) e você tem uma noção do porquê a SEGA nunca quis financiar outro jogo da série. Shenmue III estava no mesmo asilo que Half-Life 3 de jogos que todos queriam que saísse, mas a realidade mostrava que isso seria impossível.

 

Até que chegou a lendária E3 de 2015, onde uma promessa foi feita. Yu Suzuki em pessoa veio ao palco da apresentação da Sony anuncia a criação da campanha de financiamento coletivo via Kickstarter para Shenmue III. Com sua meta inicial sendo batida em poucos minutos e ao final chegou a atingir a marca de seis milhões de dólares arrecadados, tornando o projeto mais bem sucedido na história da plataforma até o momento.

 

Após um pouco de atraso e de diversos polimentos, o tão falado Shenmue III foi lançado em novembro de 2019, 18 anos após o segundo jogo. É um jogo que deu muito o que falar, e precisamos colocar algumas cartas na mesa para entender melhor se esse jogo é tão ruim ou decepcionante quanto costumam dizer.

 

 

Em primeiro lugar, vamos falar da produção do terceiro jogo em si. Apesar da campanha no Kickstarter de sucesso, os fundos arrecadados para produzir o game representam apenas uma fração o que a SEGA bancou na época por Shenmue I & II. Digo isso porque após ter jogado os dois primeiros jogos, é perceptível que mesmo sendo jogos lançados há 20 anos, eles possuem um valor de produção bem maior do que este. Shenmue III não ficou entre os jogos que mais se destacaram em 2019. Creio que o ponto que mais sofreu com esse orçamento menor foi seu sistema de combate, extremamente simplificado e nem um pouco robusto ou fluido como era nos dois primeiros jogos.

 

Também percebemos como a recriação dos centros urbanos não está tão complexa quanto os outros jogos. Tudo está mais plástico e falso dessa vez. Um detalhe besta que notei, mas que me decepcionou um pouco foi quando parei para prestar atenção na mesa de um restaurante. Estava cheio do mesmo prato de comida, mas sem ninguém para comê-la. Por que aquilo estava ali? Parecia uma maquete malfeita e que me tirava da imersão daquele jogo.

 

Aqui está um exemplo: na imagem de cima temos uma mesa vazia com hamburgueres deixados a relento em uma lanchonete no Shenmue III, enquanto na imagem de baixo temos um restaurante de Shenmue II, com NPCs apreciando um bom almoço e com animações únicas.

 

Outro ponto a se levantar é a própria jogabilidade. Se algo que posso dizer com toda segurança é que Shenmue III é jogado como um legítimo Shenmue, para o bem e para o mal. Aquelas mecânicas todas de vasculhar casas, mini-games, colecionáveis de gachas e sair por aí perguntando para os moradores se viram um bandido? Está tudo aqui, 18 anos depois. Isso pode se revelar ser uma experiência um tanto decepcionante e tediosa caso você esperava uma releitura de Shenmue com a filosofia de criação de jogos dos tempos atuais, mas não é este o caso. Yu Suzuki se justificou, dizendo que Shenmue III foi concebido visando os fãs dos primeiros jogos. É aqui que vemos que todo aquele enfoque no realismo, que eram impressionantes na virada dos anos 90 para 2000, sendo feito agora pode ser um tanto maçante caso você esteja com certa pressa em progredir no jogo.

 

 

E por último, eu terei de dar um SPOILER sobre o final desse jogo. Sinta-se à vontade em pular este parágrafo se não quiser saber, apesar de sinceramente saber disso até me ajudou a apreciar o jogo com mais tranquilidade e menos frustração. O que as pessoas queriam de Shenmue III era uma conclusão para a história de Ryo. Mas acontece que ela não termina aqui, caindo na mesma coisa que aconteceu no segundo jogo: ele termina com um gancho para uma continuação. Suzuki teve uma nova chance para fechar a jornada de vingança de Ryo, agora o jeito é esperar para saber se Shenmue IV um dia virá a se tornar realidade algum dia, ou se ele só fez tomar o lugar do III como jogo que as pessoas irão esperar eternamente para sair.

 

Agora focando na minha experiência com este jogo. Tendo em mente sobre o seu final e jogando pausadamente como fiz com Shenmue I & II, eu pude aproveitá-lo bem mais do que eu estava antecipando. De fato, o sistema de combate está extremamente simplificado, mas que não é ruim ou malfeito.

 

De diferente, o jogo tem uma barra de estamina, onde a performance do Ryo vai piorando se ele não se alimentar de tempos em tempos e vai consumindo sua barra de vida. É possível remediar a situação farmando dinheiro e comprando um energético que recupera tanto a vida de Ryo durante os combates, como essa barra de fome. Percebe-se que foi uma mecânica implementada visando ainda o realismo que a série sempre tenta emplacar, porém sua aplicação é um tanto quanto desnecessária e levemente incômoda.

 

Do que é possível enumerar de ponto positivo de Shenmue III está no seu visual. Ainda que não tão forte no realismo, mas os cenários são belíssimos, com cores vibrantes e paisagens exuberantes. Ele ainda é um jogo de Shenmue, então a parte contemplativa e de progressão mais devagar acaba tendo seu charme, especialmente para quem quiser relaxar um pouco fazendo atividade diversas nas duas áreas principais: a vila de Bailu, localizada na região montanhosa de Guilin, e a cidade ribeirinha de Niaowu.

 

 

Jogar os três primeiros jogos de Shenmue certamente é uma experiência única, parecido com nada que eu já tinha jogado até então. Os dois primeiros são realmente grandiosos e ousados com suas propostas: uma simulação da realidade, com o jogador tendo a liberdade para ir para vários lugares e fazer mil e uma coisas. Tudo isso tendo como um pano de fundo uma história de vingança e mistérios que giram em torno de um jovem ainda alheio ao seu verdadeiro potencial e o que o futuro lhe reserva. Ter a liberdade para se viver cada dia pausadamente, observar as rotinas de cada NPC, minuciosamente elaborada e implementada, são todas conquistas impressionantes e extremamente imersivas. Infelizmente o terceiro jogo ganhou uma mítica que, ao ser lançado, acabou não atendendo as grandes expectativas do público, mas ainda sim é um legítimo Shenmue na sua forma de se jogar. Com um orçamento menor e um sistema de combate simples, de fato, mas ainda é um Shenmue. Sendo jogado com calma e apreciando cada uma o deixa mais apreciável.

 

Eu recomendo os jogos, tanto para se impressionarem com seus feitos técnicos na época, como para quem gosta de filmes de luta asiáticos dos anos 70 e 80 e quem esteja procurando por jogos com um ritmo mais pausado. Suzuki se vislumbrou de sua viagem à China e ele e sua equipe sintetizaram essa paixão em Shenmue. Sem falar que eles nos entregaram uma representação fidedigna do subúrbio de uma pequena cidade japonesa e de várias ambientações na China dos anos 80. Apesar da história de Ryo não ter acabado, torço que ela tenha uma conclusão que faça justiça a memória de seu falecido pai: que ele supere o sentimento de vingança e aprenda a zelar pelos amigos que está fazendo em sua jornada.

 

 


 

ShenmueI & II estão disponíveis no Dreamcast e Xbox original. Ambos tiveram um relançamento em HD para PS4, Xbox One e PC em 2018. Por fim, Shenmue III foi lançado em 2019 e atualmente está disponível apenas para PS4 e PC.

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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