ENTREVISTA: Wendel Bezerra, a voz brasileira de Son Goku em Dragon Ball Super: SUPER HERO

"Oi, eu sou o Goku!"

 

Seguindo com as nossas entrevistas com o elenco da dublagem brasileira de Dragon Ball Super: SUPER HERO, hoje trazemos a nossa entrevista com o dublador e diretor de dublagem Wendel Bezerra, conhecido por fazer a voz de Son Goku. Wendel também foi o diretor de dublagem do longa e vai nos contar como começou a dublar o Goku, como é dirigir a dublagem de um filme de Dragon Ball, o impacto que o personagem e a série tiveram em sua vida e muito mais! Boa leitura!

 


 

Pode nos contar como você iniciou sua carreira no ramo da dublagem e como foram os seus primeiros anos dublando o Goku?

 

Wendel: Eu comecei a dublar com 5 anos - já fazia teatro, onde fiz minha estreia com 4 anos de idade, já fazia até publicidade e comerciais. Minha primeira dublagem foi na Odil Fono Brasil em 1979, e de lá para dá nunca mais parei. Eu comecei a dublar o Goku em 1999, após fazer o teste e ser aprovado. Eu não sabia nada sobre Dragon Ball ou o que a série representava, nem do personagem, foi uma grande surpresa.

 

Quando comecei, eu já tinha 20 anos de experiência em dublagem, e pensei que seria só mais um “personagem” na minha carreira. Quando começamos a dublar em cima do material já dublado em espanhol, no México, minha referência era o dublador mexicano do Goku, e como eu não sabia se aquele material estava bem traduzido ou dublado, eu me baseava muito na animação, nas expressões faciais do Goku, para eu não poder ser influenciado demais pelo dublador mexicano, pois eu não sabia se aquilo estava fiel ou não ao trabalho original. Mas isso também foi algo que ajudou a gente - o projeto já ter sido dublado em espanhol tornou um pouco mais fácil de conseguir acompanhar a cena, tendo em vista que a dublagem japonesa na época não era tão boa de acompanhar quanto hoje em dia.

 

 

Nesses anos todos dublando o Goku, qual foi a maior diferença que você notou no personagem? Teve algo que mudou no seu estilo de dublá-lo de lá até hoje, com o filme do Dragon Ball Super: SUPER HERO?

 

Wendel: Uma mudança bem acentuada que aconteceu com o Goku foi em Dragon Ball Super, no início, ele está bem relaxado, brincalhão e solto - já não era mais aquele personagem sério e compenetrado que vimos em Dragon Ball Z. E neste novo filme, ele continua na pegada de Dragon Ball Super, num tom jovem e brincalhão, que eu gosto muito. Claro, eu gosto muito de quando ele está todo “heroico” e tal, mas fico muito contente em poder dublá-lo quando ele está desse jeito mais despojado e descontraído, me divirto muito dublando assim.

 

 


Quais os maiores desafios em dublar o Goku? Tem algo que era muito difícil antigamente e que hoje se tornou mais fácil?

 

Wendel: Acho que o maior desafio em dublar ele foi ao longo dos anos, enquanto eu descobria a importância, alcance e grandeza desse personagem. Eu, como ator e dublador, comecei a sentir isso através das manifestações de carinho do público no Brasil inteiro (e até de fora), então cada vez que eu percebia o quão importante para o público era o Goku, bem como o quanto ele tinha impactado a vida de jovens de forma muito positiva com relação a bullying, depressão, vencer doenças e outras dificuldades da vida. Toda vez que eu lia relatos assim, o personagem se tornava ainda mais importante para mim.

 

Então o meu desafio pessoal era sempre manter a qualidade da dublagem, de uma forma que as pessoas gostassem e os agradasse. Toda vez que vou para o microfone, carrego comigo essa responsabilidade de fazer o melhor trabalho o possível, pois não quero decepcionar ninguém de forma alguma. Como diretor, também preciso me certificar de que o público saia contente e feliz com a dublagem.

 


Antigamente, o material original que vocês dublavam de Dragon Ball era com a dublagem em espanhol. Há algo na dublagem em espanhol e no áudio original em japonês que impactou na sua dublagem do Goku, ou você já possui uma técnica própria para interpretar o personagem?

 

Wendel: Como eu disse antes, eu sempre tentava trabalhar em cima mais do que eu estava sentindo na cena, das expressões facial e corporal, diálogos, era nisso que eu me baseava para interpretar. Uma coisa que eu acho que atrapalhou um pouco a gente foram alguns nomes. A Genki Dama, por exemplo, no começo, era pronunciada um pouco diferente em diferentes situações. E como usávamos o espanhol como referência - e não tínhamos nenhum outro meio de comparar - tampouco a presença do cliente conhecedor do produto (como existe hoje em dia). Hoje em dia, se quiséssemos saber algo de Dragon Ball, por exemplo, é só a gente mandar uma mensagem pro cliente e pronto… Mas naquela época era tudo mais difícil.

 


Além do Dragon Ball Super: SUPER HERO, você foi diretor de dublagem de outros filmes de Dragon Ball e até dos primeiros episódios da série do Dragon Ball Super. Quais a principais diferenças entre trabalhar na direção de um longa-metragem de Dragon Ball, para a série em anime ou de outros desenhos?

 

Wendel: Bom, dirigir um filme de Dragon Ball é diferente do que dirigir qualquer outro filme, porque existe um envolvimento pessoal de carinho, gratidão e paixão muito grande. É uma história muito longa com os personagens, público e com a série também. Me vejo muito na obrigação de devolver o meu melhor para o público, e isso faz com que eu me cobre mais e cobre ainda mais dos atores. Em relação à série, é diferente sim. Porque a série, até para quem desenha e produz, é algo que precisa ser feito mais “rápido”, e dublar um atrás do outro. Então se algum dublador não pode, você precisa tentar outro, e assim vai.

 

Existe um prazo que é mais dinâmico e você entra nessa rotina (não perjorativamente falando) de gravar, já o filme você consegue gravar numa única semana. Bem como a animação do filme é mais detalhada e há mais cuidados com a animação, a gente tem um pouco mais de tempo de trabalhar em cima da dublagem para entregar um trabalho de ainda mais qualidade, que passa por mais mãos e com mais critério. E isso ocorre em todas as etapas do processo.

 

O sound design de um filme, por exemplo, sempre é mais rico que um sound design de uma série. Eu diria que essa é uma diferença de dirigir um filme de Dragon Ball em relação à série — o elenco é o mesmo, o carinho também.

 


O filme de Dragon Ball Super: SUPER HERO utiliza um estilo de animação diferente dos outros filmes e animes de Dragon Ball. Isso influenciou na forma como você dirige ou dubla em Dragon Ball ou processo foi como nas produções anteriores?

 

Wendel: Assim como para os atores que fizeram as vozes originais quanto para os dubladores, não faz tanta diferença o estilo da animação. A gente realiza o mesmo trabalho, da mesma forma, dando vida aos personagens naquelas situações. O que muda é que a gente acaba sendo um pouco mais espectador do que deveria, porque ficamos analisando algumas cenas, tipo “nossa, olha aquele mar ali” ou “olha aquela explosão”. 

 

 


Apesar de muita gente ver o Goku como um super-herói e salvador, ele na verdade é um legítimo artista marcial, alguém que sempre está se aperfeiçoando e buscando superar seus próprios limites como lutador, somado a sua inocência e bondade que raramente o faz ter rancor de alguém. Há algo que o Goku ensinou para sua vida?

 

Wendel: Eu aprendi muita coisa com o Goku. A ter mais paciência nos momentos de tensão, a estar sempre otimista, e algo que me ajudou muito como empresário: aprendi a importância de você formar um grupo que caminha junto com você, independente de suas origens, vontades ou diferenças. O Goku é um líder nato que faz isso muito bem, que junta até inimigos num mesmo propósito, as pessoas confiam e gostam muito dele por essa transparência e sinceridade dele. E eu vou tentando levar tudo isso para minha vida, e não tenho dúvida nenhuma de que aprendi muito com ele - e consigo colocá-las em prática em vários momentos da minha vida.

 

Eu acho que o Goku é tão querido porque ele representa tudo aquilo que a gente quer ser ou ver nas pessoas; ele não é preguiçoso, ele não desiste, é bem-humorado, agregador, se supera, tem sempre algo positivo (você nunca vê ele reclamando ou de mau-humor), tampouco desiste. Sinto que todo mundo quer ver isso em si próprio e nos outros, sejam familiares, amigos, professores. E ele não tem o esteriótipo de “galã”, então ele se torna esse cara bacana e diferente. 

 

Confesso que já tentei colocar em prática várias dessas coisas que o Goku faz… Nunca consegui treinar como ele, mas já consegui comer igual e ele [risos].

 

 

Dragon Ball é cheio de momentos, seja combates mortais ou situações cômicas, mas teve algum momento em particular dublando o Goku que você guarda com carinho na memória?


Wendel: Tem vários. Eu lembro quando o Goku derrotou o Vegeta pela primeira vez, e em vez de acabar de vez com ele, o Goku decide poupá-lo. Mesmo depois de tudo que o Vegeta fez, incluindo a traição, ele o perdoou e acreditou que podia melhorar. Gostei bastante da fase do Freeza também, que foi quando eu passei a ser realmente um grande fã da série.

 

Outro momento especial foi quando voltei a dublar o Goku após um longo tempo sem dublá-lo… Não lembro direito quanto tempo foi, mas vou chutar uns 10 anos. Aí quando voltei, estava tenso e fiquei com medo de minha voz ter envelhecido, comecei a me questionar e procurar medos… Esses três momentos foram marcantes para mim.

 



Na sua opinião, o que torna Dragon Ball uma série tão duradoura e querida por tantas pessoas?

 

Wendel: Eu acho que Dragon Ball consegue muitas façanhas que são difíceis de colocar numa mesma obra. O Akira [Toriyama, mangaká criador de Dragon Ball] conseguiu fazer algo muito mágico na série — que é ter um humor leve (às vezes beirando o infantil de tão bobo), e junto a isso, personagens muito antagônicos e dos mais diversos tipos, acho que ele consegue trazer de forma mesmo que inconsciente essa questão de diversidade e inclusão, de tolerância, e isso é muito legal, porque os personagens têm os espectros mais variados possíveis.

 

As batalhas também são muito legais, todo mundo sempre gostou muito, elas são duradoras, intensas, e se transformam, mudam a cada episódio. Além do famoso spoiler no fim de cada episódio de Dragon Ball Z que dizia o que ia acontecer no próximo, e mesmo assim a gente assistia amarradão, porque sabíamos que tudo podia rolar, mesmo algo diferente do que o título sugeria. É uma junção de elementos que encanta qualquer um, independente de classe social, idade, tudo.

 

Uma série de mais de 30 anos, que encanta todo mundo, passa de geração a geração, com fãs no mundo inteiro, de todos os tipos e idades. É uma série que traz muitas lições ao longo do caminho, de tolerância, de não desistir, de se superar, até de amor (entre casais, bem como entre pais e filhos). E eles conseguem renovar isso toda vez, todos esses momentos e processos são únicos. É por isso que a galera das antigas segue acompanhando, e quem passou a conhecer há pouco tempo também já adora e quer saber o que veio antes.

 

Para mim, como ator, dublador e diretor de dublagem, considero um verdadeiro privilégio e bênção poder fazer parte de um projeto dessa magnitude e especialmente de poder dublar esse personagem que é o mais marcante da minha vida e da minha carreira.

 


 

 

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Confira essa e outras entrevistas com o elenco de dublagem:

 

 

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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