Os destaques do ano: imprensa especializada compartilha seus mangás favoritos publicados em 2017

Convidamos um time de nomes da blogosfera animística para compartilharem seus mangás favoritos de 2017 conosco!

Último dia de 2017, e em clima de chegadas e despedidas convidamos formadores de opinião do universo do anime e mangá no Brasil para fazermos um balanço do mercado nacional de quadrinhos orientais esse ano por aqui. O que cada um mais gostou de ler nesse ano que se passou?


Gabriel Sauandag (do Canal do Sau, e redator do site Chuva de Nanquim) foi também redator da Crunchyroll entre 2016 e 2017. Karol Facaia integrou por muito tempo o time do Gyabbo!, blog da rede Genkidama, e segue por lá principalmente na cobertura de eventos como o AF e Ressaca. 


Já "Kyon" é o dono do Biblioteca Brasileira de Mangás, blog que teve rápida ascenção no meio. Leonardo Kitsune é outro membro do grupo Genkidama que topou participar do nosso especial, e também um dos "cabeças" do Video Quest, canal do Youtube no ar há mais de seis anos, com mais de 600 vídeos publicados, entre eles primeiras impressões de animes, análises completas de obras, e debates semanais dos mangás mais populares.


Mara do blog Mais de Oito Mil é outra convidada nossa e dispensa apresentações: com humor ácido e sem medo de alfinetar, o MdOM é uma forma de se manter muito bem informado de forma descontraída.


Convidamos também Marco, do Intoxicação Animentar, site especializado em análises de animes, light novels, rankings, e algumas outras lacunas que destacam o Intoxi como um portal especializado na divulgação desses conteúdos. Outra convidada ilustre do nosso especial é Míriam Castro, a Mikannn (Mikannn com três "n" no final), youtuber e também entusiasta desse pedacinho da cultura japonesa como nós.


Integra também nosso elenco de convidados Patrícia Machado, da revista digital Ovelha Mag, e este que vos fala, que também gostaria de compartilhar seu mangá favorito do ano com a audiência.


Com esse time formado, pedimos então que cada um compartilhasse com a nossa audiência suas leituras prediletas do ano, e chegamos então a uma lista com dez títulos, ordenados por ordem alfabética, que você confere a seguir!


The Ancient Magus Bride (Devir) 

 

Marco

Esse mangá é algo bem diferente comparado ao que eu costumo ler, e olha que pego uma boa variedade de gêneros. Ele é uma fantasia romântica com slice of life, sobrenatural, tragédia, aventura e suspense. Mas o mais esquisito e único mesmo é o casal central. Nunca achei que iria ficar "shippando" uma cabeça de cabra com uma humana. E olha que eu já li um bando de mangás focados em garotas monstro!


A história se passa na era moderna apesar de focar mais nas áreas rurais, e mistura elementos de fantasia como magia, fadas, dragões, ect. A maioria deles é conhecida da literatura fantástica, a autora só os aplica com algumas modificações aqui e ali. Uma das coisas mais interessantes é como ela consegue explicar seu mundo e o mecânicas sem apelar para os famosos 'textões'. A relação de Chise e Ellias tem vários daqueles momentos que você sorri por achar bonitinho ou coisa do tipo, e admito, que por mais que tenha achado estranho quando vi o primeiro capítulo, eu gostei muito do desenvolvimento deles a longo prazo. Em geral os dois se completam. Ellias busca uma companhia e os sentimentos que nunca conseguiu ter durante sua longa vida. E Chise, que sofreu e foi maltratada a vida toda, busca desesperadamente por alguém que a valorize, e um lugar aonde seja querida.
 

A escrita é madura sem deixar a leitura arrastada ou tediosa (o problema de muitos mangás nesse modelo), os personagens principais são muito interessantes, o mundo bem construído e a trama, ao menos até agora, está caminhando de forma bem satisfatória. Então, tirando o preço um pouco salgado que lançaram o mangá aqui no Brasil, e a não ser que a pessoa só goste de obras focadas em ação, eu com certeza recomendaria esse mangá.

 

 A Voz do Silêncio (New POP) 


Gabriel Sau:

Se fosse definir “A Voz do Silêncio”, conhecida por muitos como “Koe no Katachi”, com uma palavra, seria “singela”. Uma história pura e simples com o grande propósito de transmitir as mais diversas mensagens. Bullying, superação, amor ao próximo e, um dos mais importantes, o suicídio são alguns dos temas que permeiam a história de Shouya e Shouko.


A autora trabalha muito bem todos esses detalhes mostrando a deficiência auditiva da personagem Shouko, fazendo com que todos os personagens ao seu redor passem por situações coerentes que refletem e acontecem no nosso dia a dia.  Com um belo desenho, narrativa fluida, personagens cativantes e uma história de peso que precisa ser comentada e debatida, “A Voz do Silêncio” é um dos melhores mangás dos últimos anos.


Mara:

O ruim de acompanhar muitas histórias de romances escolares é que você acaba percebendo todos os artifícios usados pelos autores sem muita criatividade. "A Voz do Silêncio" até usa alguns clichês, mas desenvolve a história sobre um garoto que faz bully e uma surda de um jeito bem surpreendente e cativante.


A história emociona (embora tenha uns personagens meio vilões de novela mexicana), o traço é expressivo e o formato que a NewPOP usou para o tanko é muito prático de ler.

 Fragmentos do Horror (Darskide Books) 

 

Dudu:

Junji Ito em geral é um autor que dispensa apresentações para quem conhece o mínimo de mangá: dono de um traço peculiar e de uma narrativa que nos absorve por completo para dentro de suas histórias grotescas e muitas vezes até doentias, o autor prova na sua obra Fragmentos do Horror - lançamento da Darkside Books - que continua sendo autêntico e surpreendente, além de mostrar a flexibilidade do seu gênero nesse compilado de oito histórias.

 

De início achei que haveria pouco espaço para que a atmosfera de suspense já tão típica do autor fosse criada, mas para a minha sorte eu estava enganado: em histórias como Tomio e Pássaro Negro bastaram alguns quadros para que a aflição e o incômodo que Junji Ito geralmente causa em suas obras já estivesse se fazendo presente.

 

O mangá é uma obra prima do autor e uma excelente porta de entrada para o universo do grotesco, aterrorizante e fascinante universo de Junji Ito, que ficou mais de uma década sem ser publicado no Brasil, mas que voltou, definitivamente, da forma que merecia: em uma edição de luxo para ninguém botar defeito.

 

Fragmentos do Horror é o primeiro mangá publicado pela Darkside Books, editora especializada em... terror. E aqui cabe destacar o excelente trabalho editorial que foi realizado, não só pelo acabamento físico do material - que inclui capa dura holográfica, lombada quadrada, e papel offset de excelente gramatura - mas também o trabalho de tradução e revisão.

 

O Homem Que Passeia (Devir) 

 

Gabriel Sau:

“O homem que passeia” não é só um dos melhores mangás lançados esse ano por aqui, ele é um marco importante, a volta do gênio Jiro Taniguchi ao Brasil depois de “O Livro do Vento” e “Seton” pela Panini, o segundo sendo cancelado em seu primeiro volume, e “Gourmet”, da Conrad. Sem esquecer um dos pontos mais importantes: o mangá marca a entrada de mais uma editora no mercado de mangás no Brasil, a Devir, conhecida de longa data pelos fãs de quadrinhos.


É uma obra contemplativa, com desenhos detalhados, lindos e com excelente narrativa gráfica, “O homem que passeia”, “Aruku Hito” no original, é um quadrinho tocante que sai do nicho de fãs de mangás e atinge todos os amantes da 9ª Arte. Compra certa para quem gosta de expandir seus conhecimentos.

 

Mob Psycho 100 (Panini) 

 

Mara:

Em meio a tantos títulos "de humor" lançados pelas editoras brasileiras, eis um dos poucos que conseguem chegar ao objetivo final que é a risada. O One não se prende a um humor de nicho para atrair apenas otaku, ele cria situações realmente cômicas e diálogos afiados para seus personagens. A apatia do Mob diante das situações surreais é simplesmente hilária.


O desenho feio é apenas parte do carisma deste mangá, que ainda tem uma história cativante e até uma certa dose de drama. Não se deixe enganar pelos desenhos primários, aqui é um diamante que não precisa de lapidação porque já está ótimo como está.


 

One Week Friends (Panini) 


Kyon:

Em 2017 foram lançados no Brasil várias obras muito boas como O homem que passeia, O homem que foge, Your Lie In April, A voz do silêncio, entre diversos outros. No meio deles, um título parece ter passado despercebido demais, sem receber a devida a atenção, One Week Friends.


One Week Friends é, em minha opinião, o melhor slice of life de comédia a ser lançado no Brasil em 2017. Não que isso seja uma tarefa difícil, já que há uma falta enorme de concorrentes, mas após cinco volumes publicados a qualidade da obra não diminuiu em nada e o humor continua fazendo efeito e agradando bastante quem aprecia obras que se passam em um contexto escolar.

 

O mangá ainda tem uma pitada de drama, mas é um drama tão leve, mas tão leve, que é difícil considerar como uma comédia dramática. De modo geral, o drama acontece em um capítulo ou outro, mas logo o humor prevalece.

 

One Week Friends não é perfeito. Tem uns defeitinhos aqui e ali que incomodam um pouco quem é mais exigente, mas para quem quer se divertir, esse sem dúvida foi um dos melhores mangás publicados no Brasil em 2017.


 

 Opus (Panini) 


Patrícia Machado:

Muitos podem não saber que, antes de ser o meu diretor favorito quando se trata de (filmes em) anime, Satoshi Kon também foi mangaká espetacular. Opus foi o seu trabalho final antes de entrar de cabeça no mundo da animação e lançar Perfect Blue (1998) e aborda os mesmos temas que são comuns em suas obras - o debate entre ficção e realidade, sonho e lucidez.


O quadrinho começa falando sobre o mangaká Chikara Nagai tentando entregar o capítulo clímax do arco atual de Resonance, um mangá de suspense sobrenatural. Porém, o caos se inicia quando um personagem importante da trama foge levando consigo a página mais importante do final da história e acaba arrastando o autor para dentro do universo do seu próprio mangá. A partir daí começa uma batalha os personagens e o próprio Nagai para derrotarem o vilão e conseguirem salvar o mundo de Resonance antes que os editores decidam cancelar o mangá!


O mais forte de Opus é como Satoshi Kon consegue fazer a transição entre o mundo "real" e o mundo "fictício" e os melhores momentos são quando nos perguntamos quem na verdade seria o responsável pelo desfecho dessa obra. Isso por si só já valeria a recomendação, no entanto a vida imita a arte e, assim como Chikara Nagai não consegue terminar Resonance, Satoshi Kon não conseguiu terminar Opus pois a revista onde era publicado foi cancelada antes da história terminar. Após a sua morte em 2010, um novo capítulo não finalizado foi encontrado na casa dele, considerado o final verdadeiro por Kon, e foi publicado junto com o novo lançamento do mangá e que está presente na edição brasileira.  


O capítulo final torna Opus uma leitura fascinante e difícil de esquecer. E não me faz deixar de pensar que esse artista fantástico foi embora cedo demais.

 

Leonardo Kitsune:

Opus, de Satoshi Kon, que é próximo de genial e todo mundo tem que ler (todo mundo!), uma viagem metalinguística como poucas.

 

 

Pluto (Panini) 

 

Mikannn:

É sempre bom ler Urasawa. Ouvi falar bastante de Pluto e como era uma boa reimaginação da obra de Tezuka, então fiquei ansiosa quando a Panini anunciou que traria o título pro Brasil. E o primeiro volume superou minhas expectativas! Urasawa conta sua versão do arco O Maior Robô da Terra, de Astro Boy, que começa com o assassinato de um dos robôs mais poderosos do mundo e sua investigação pelo androide Gesicht. O mangaká é excelente nas histórias de suspense, mas a sensibilidade é o que me faz gostar dele mais ainda - o que me fisgou mesmo no primeiro volume foi um simples mordomo robô e sua vontade de tocar piano.


 

Sherlock - Um Estudo em Rosa (Panini) 


Karol Facaia:

um estudo em rosa é uma adaptação direta do seriado do mesmo nome, produzido e transmitido pela BBC, é escrita pelo Steven Moffat e Mark Gatiss, desenhado por Jay e está em publicação na revista japonesa Young Ace desde 2010.


Aqui no Brasil, a obra foi licenciada pela editora Panini, e dentre os lançamentos desse ano, apesar de ser consideravelmente irrelevante para maioria do público consumidor de mangás, foi uma das minhas maiores surpresas de 2017, na minha opinião.


Sua fidelidade com a obra original, sabendo transpor no papel toda essência que o seriado apresenta, sem escapar nenhuma nuança é incrível.


Mesmo sendo uma adaptação incomum, sua narrativa se mantém instigante e muito bem trabalhada. O mangá prende o leitor do começo ao fim, apresentando um caso muito bem desenvolvido com  um desfecho inesperado.


Sherlock versão mangá foi uma ótima pedida tanto para aqueles assim como eu são fãs da série quanto aos que nunca assistiram, mas queiram se aventurar em seriados de detetives.

 

 

Your Lie in April (Panini) 

 

Leonardo Kitsune:

Quero falar também de um mangá que me surpreendeu: Your Lie in April (Shigatsu wa Kimi no Uso).


Sim, todos amam o animê - que eu não vi. Sempre que digo que estou lendo o mangá, alguém precisa apontar o dedo e dizer que é pra assistir o animê.


Pois eu digo: dêem uma chance ao mangá. É surpreendente o quanto as páginas obviamente mudas do mangá conseguem passar a sensação de quem está ouvindo a música dentro da história. A quadrinização é fluida, com sequências enormes de páginas duplas que simulam ora a leveza de passagens mais belas, ora o peso de peças mais intensas, além, claro, da tensão dos personagens. É um mangá pesado, sobre traumas, relações abusivas e amores não correspondidos, e ainda consegue momentos de leveza e bom humor. Recomendadíssimo.


Outras Principais Notícias

2 Comentários
Ordenar por: