Feminilidade, ferocidade e releituras: paralelos entre a poeta e ativista política Akiko Yosano e sua contraparte ficcional em Bungou Stray Dogs

Artigo especial!

"You may write me down in history

With your bitter, twisted lies,

You may trod me in the very dirt

But still, like dust, I rise."

Maya Angelou



"Você pode me inscrever na história

Com as mentiras amargas que contar

Você pode me arrastar no pó

Ainda assim, como pó, vou me levantar."

Maya Angelou




Marjory é formada em Letras, e desde sempre prefere ler a qualquer outra coisa. Tem pouco tempo como fã de animes e mangás, mas ficou tão eufórica com Bungou Stray Dogs que, além falar sobre em todo lugar, teve também publicado um resumo estendido sobre Osamu Dazai nos anais do III Seminário de Filosofia e Sociedade da UNESC, em Santa Catarina. Escreveu esse texto à convite da redação, e para acompanha-la em suas aventuras como entusiasta de literatura e cosplayer, o contato é pelo Instagram na arroba @uchuupri.




A Arte, além de entretenimento, sempre ofereceu também espaço para retratar o cotidiano dos contemporâneos de seus autores; esses registros servem a nós, leitores e espectadores posteriores, como uma visão única e cheia de nuances, uma chance de enxergar o passado pelos olhos de alguém que estava lá, em sua própria interpretação dos fatos históricos.



Mesmo dentro do espaço acadêmico ainda existem digressões e discordâncias sobre o que, exatamente, é Arte; por outro lado, é justamente essa vastidão de interpretações que permite ao artista expressar-se com intrínseca individualidade e de inúmeras maneiras diferentes. Períodos complicados da História são, por exemplo, tema recorrente desses mesmo artistas, que os eternizam no papel, tela ou canção, e gravam suas impressões para a posteridade. Há também aqueles que enxergam na Arte o meio ideal para defender seus ideais, de subverter costumes ultrapassados, de atacar um status quo que já não é mais satisfatório, mas que não se desfaz justamente por ter se transformado em uma espécie de zona de conforto.


Akiko Yosano, nascida em Osaka no ano de 1875 com o nome de Akiko Otori, é reconhecida como uma das figuras literárias mais controversas no cenário artístico japonês pós Primeira Guerra Mundial. Com seu poema Kimi shinitamou koto nakare (“Que tu não morras”, tradução da autora), publicado em 1904, Yosano-sensei tomou seu lugar na luta anti-militarista, rogando nos versos que seu irmão mais novo não perecesse em batalha como muitos outros jovens japoneses. Tanto por meio de seus tankas de temática renovada quanto pela adaptação da famosa obra do século X Genji Monogatari, de Shikibu Murasaki, para o japonês moderno, Akiko Yosano deixou sua marca no cenário literário japonês ao usar a Arte como manifestação de seus ideais.


Em 2013, com a publicação da série de mangá Bungo Stray Dogs, de Kafka Asagiri e Sango Harukawa, Akiko Yosano deixou de ser apenas uma figura importante do passado para transformar-se também em personagem ficcional; apesar de a história de Asagiri conter elementos fantásticos e surreais que não fizeram parte da vida de sua contraparte real, a nova versão da poeta, médica, mãe e professora serve como encarnação concreta dos ideais defendidos com afinco em seus poemas e discussões públicas.


Deste ponto em diante, para que poeta e personagem sejam diferenciadas no texto, a primeira será referida como Yosano-sensei, enquanto a segunda será chamada pelo nome Akiko.

 

 

Na Yokohama de Kafka Asagiri, existem seres humanos dotados de habilidades especiais. Como em boa parte dos enredos com essa temática, os portadores de habilidade estão divididos em facções cujas ideologias definem seu modo de agir, assim como suas inimizades. Akiko Yosano é integrante da Agência de Detetives Armados, os “mocinhos” do primeiro arco do mangá. Akiko é oficialmente a médica do grupo, e trata os companheiros quando esses são feridos em missão. Seus métodos, porém, estão longe de ser ortodoxos; por causa de limitações de sua habilidade e de uma certa tendência ao sadismo, Akiko deve deixar seu paciente à beira da morte para que seu poder possa ser acionado. O receio dos outros detetives em serem tratados pela doutora revela o respeito e o temor que eles têm por ela, assim como servem como base para as cenas de alívio cômico envolvendo a personagem.


Seu primeiro capítulo de destaque na trama é nomeado Hito o koroshite shineyo to te (“Morra matando outros”, tradução da autora). O verso faz parte do poema citado acima Kimi shinitamou koto nakare, que dá nome à habilidade da personagem. Nesse ponto Akiko é abordada negativamente por um personagem masculino pela primeira vez na história do mangá, e reage com sarcasmo e violência. O exagero é, aliás, um dos elementos interessantes associados à personagem: além da postura autoritária e autoconfiança evidente, Akiko opta por usar armas brancas de tamanho considerável, e as maneja ameaçadoramente contra seus adversários. Essas características combinadas sugerem que a personagem sente a necessidade se provar forte e independente para as pessoas ao redor; ser mulher não faz dela uma lutadora menos feroz, nem uma médica menos hábil. Enquanto esse reconhecimento é concedido sem mais problemas pelos colegas da Agência, há ainda momentos em que o fato de ser mulher faz com que Akiko seja menosprezada. Esse é, aliás, o primeiro ponto de alívio cômico no capítulo em questão: a reação a princípio cordial da personagem se distorce em violência quando o personagem masculino que a ofende continua sendo rude.


 

De forma análoga, Yosano-sensei não se recusava a debater com aqueles que se punham como opositores; aoescolher falar da sexualidade da mulher na forma clássica do tanka, a poeta comprou briga com autores homens: como Marilia Kubota descreve no artigo Akiko Yosano e a vanguarda poética japonesa: “devido à ousadia em relacionar seios e sexualidade e não à maternidade, o poeta Nobutsuna Sasaki a atacou, por ‘corromper a moral pública’ e ‘falar obscenidades como uma prostituta. ’” (KUBOTA, 2018).

 

A revolução de Yosano-sensei acontecia em seus versos, em seus tanka de conteúdo inovador, combinados com temáticas relevantes para a poeta e incômodas para alguns de seus contemporâneos. As flores e as estações serviam à autora como metáforas para uma mulher liberta de padrões engessados e pronta para abraçar-se como ser humano consciente de seu corpo e de sua responsabilidade consigo mesma. Kubota (2018) também cita como exemplo concreto de oposição o fato de a casa da poeta ter sido apedrejada em ocasião da publicação de Kimi..., enquanto Yosano-sensei debatia com o jornalista Omachi Keigetsu a respeito do posicionamento – ou não – de poetas sobre as políticas militares do governo japonês na época.

 

 

Além de trazer de volta a sensualidade feminina à poesia japonesa, Yosano-sensei também é bastante conhecida por adaptar para o japonês atual o romance Genji Monogatari, de Shikibu Murasaki – considerado a primeira obra longa em prosa da literatura mundial. O movimento de releitura não é novidade dentro do cenário artístico japonês, e, como é provado pelo sucesso da versão de Yosano-sensei do texto original, pode tornar obras clássicas mais acessíveis ao público jovem. Da mesma forma, a cultura pop atual retoma essa prática ao inserir personagens famosos por outros motivos em um novo contexto: apesar de não ser necessariamente inovador, Asagiri faz seu trabalho com louvor ao retratar a poeta Akiko Yosano como uma mulher segura de si e sem medo de enfrentar oposição ou contratempos – ambos bastante frequentes na história tanto de Akiko quanto na de Yosano-sensei.


Midaregami, Kimi shinitamou koto nakare, Genji Monogatari e tantos outros ensaios, poemas, textos: Akiko Yosano continua viva e ativa, tanto por meio de seu legado literário quanto na pele da personagem de mesmo nome, e ambas hão de inspirar muitas outras meninas a se afirmarem como suas próprias pessoas, no direito de escolherem como fazer suas escolhas, com a consciência de que é delas esse direito.



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