Análise: Gigantomachia

A arte de desenhar mangá em sua forma mais bela nessa grande obra de Kentaro Miura

Acredito já ter comentado em um dos textos da coluna Vamos Ler Mangás o quanto eu gosto de One Shots e mangás curtos. Sério, eu adoro ler uma história do início ao fim sem ter a preocupação de ficar vários meses acompanhando até chegar a uma conclusão. Um curto período de tempo para publicação pode acabar limitando bastante o tipo de desenvolvimento e profundidade de uma obra, mas se o autor conseguir focar no que realmente importa, é possível contar uma história interessante mesmo tendo apenas um volume para isso. Esse é o caso de Gigantomachia.

 

O mangá chegou às bancas de todo Brasil no mês de janeiro e se trata da primeira obra original de Kentaro Miura depois de 24 anos se dedicando ao seu trabalho atual e mais duradouro - Berserk. A obra foi publicada originalmente na revista japonesa Young Animal em 2013 e chega ao Brasil pela Panini, sendo uma de suas principais apostas para o primeiro semestre de 2015.

 

Gigantomachia - Capa

Capa da edição brasileira

 

O mangá narra uma história de aventura e fantasia que se passa num futuro pós-apocalíptico em que a sociedade como conhecemos foi dizimada e o resto busca se adaptar a esse novo mundo cheio de desafios. É nesse contesto que conhecemos Prome e Delos, os personagens centrais da história. Prome é uma loli bonitinha que possui poderes sobrenaturais e une forças com Delos, um poderoso e experiente guerreiro que se torna peça fundamental para a utilização dos grandes poderes que Prome tem sob seu controle. 

 

Esse inusitado casal viaja por um perigoso deserto em busca de uma civilização que sobreviveu à "Grande Extinção". Eles mal sabem que um grande perigo se aproxima, uma força opressora que busca a sua completa destruição. Apenas Prome e Delos possuem as respostas que poderão salvá-los. 

 

A história apresenta uma premissa interessante para o leitor que gosta de uma boa fantasia distópica, desenvolvida através dos elementos mais clássicos do gênero. Miura também utiliza de forma bem sutil alguns conceitos da mitologia grega e a ficção científica moderna também se faz presente através das detalhadas explicações de Prome, que nos ajudam a entender o mundo onde vivem.

 

Gigantomachia

 

A forma como o roteiro foi escrito funcionou muito bem para o mangá. A história é dividida em três atos, seguindo a boa e velha fórmula popularizada pelo cinema hollywoodiano e também muito explorada em quadrinhos americanos. Notamos então que, nesse aspecto, Gigantomachia poderia ser facilmente comparado a um encadernado de heróis da Marvel ou DC, porém com muito mais profundidade para os conflitos e dilemas individuais do que no real problema que precisa ser resolvido. No entanto, ele se aproxima novamente do estilo mais tradicional de mangás nos trazendo aquelas velhas concepções de força de vontade, amizade, perdão e trabalho em equipe que todo otaku já conhece de longa data.

 

O primeiro ato é focado na apresentação dos personagens, do mundo e dos problemas que Prome e Delos precisarão encarar, além de inserir toda carga dramática que será o ponto de partida para vários acontecimentos ao longo da obra. O segundo ato trata do desenvolvimento de uma situação complicada em que nossos protagonistas foram envolvidos, em meio a uma série de conflitos fisicos e ideológicos. A terceira parte apresenta a resolução para os principais desafios que foram desenvolvidos, deixando algumas pontas soltas que ficam por conta de sua imaginação e, além disso, o relacionamento entre Prome e Delos tem um pouco mais de desenvolvimento.

 

O mangá é bastante previsível em suas resoluções, não espere por grandes reviravoltas durante a leitura, pois tudo se desenvolve de forma linear e até mesmo clichê em certas situações. Mas não se engane, isso não tira o brilhantismo da história. Também é importante salientar que o maior destaque da obra não está na qualidade do roteiro e sim na parte visual.

 

Gigantomachia

 

Desde as primeiras páginas eu fiquei encantado com o refinado traço e os cenários acurados nos mínimos detalhes. A parte artística de Gigantomachia é digna de ser considerada uma verdadeira obra de arte! Miura não cuidou de tudo sozinho (sim, ele ainda é humano... eu acho...), ele contou com a ajuda de quatro artistas para conseguir fazer o mangá com desenhos tão bonitos e detalhados, mas o seu traço marcante e sua avançada técnica de hachuras para preenchimento e sombreamento fazem toda a diferença. Esse certamente é um dos maiores destaques de sua arte. 

 

Me arrisco a dizer que a arte de Gigantomachia está num nível totalmente diferente de quase tudo que vem sendo publicado no Brasil atualmente (apenas em Berserk, do próprio Miura, e Vagabond, de Takehiko Inoue, podemos ver algo no mesmo nível ou superior). Confesso que demorei bastante para terminar a leitura, pois a cada página virada eu perdia um bom tempo apreciando a arte antes de seguir em frente. É notável que tudo foi feito com muito zelo e dedicação, o resultado final não poderia ter sido alcançado sem muitas horas de trabalho duro. 

 

Uma comparação com Berserk acaba sendo inevitável, afinal, essa foi a obra que marcou (e continua marcando) a carreira do autor, mas de certa forma isso se torna desnecessário visto que Gigantomachia tem uma pegada totalmente diferente, o que se reflete até na classificação etária - 14 anos. Berserk é uma obra sombria, violenta e sanguinária enquanto Gigantomachia tem um clima mais "leve" que pode acabar agradando até mesmo quem não é muito chegado na história de Guts e companhia.

 

Gigantomachia

 

Ficha Técnica

História e Arte: Kentaro Miura (Berserk)
Status no Japão: Completo; 1 volume
Editora no Brasil: Panini
Editora no Japão: Hakusensha
Formato: 13,7 cm X 20 cm, cerca de 232 páginas
Preço: R$ 15,90 
Classificação etária: 14 anos
Avaliação: 9/10

 

© Kentarou Miura 2014


Fábio[portuga] é redator de notícias para a Crunchyroll.pt, e nunca tinha lido ou assistido a nada do Kentaro Miura, mas foi conquistado pelo traço de Gigantomachia e começou a ler Berserk recentemente. Visite o seu perfil e siga-o no Twitter: @portugassis. Clique aqui para ler outros posts do autor.

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