Análise: Orange Vol. 1

O que você faria se pudesse mudar o seu futuro?

Qualquer fã que acompanhe o mercado de mangás brasileiro ou japonês certamente já ouviu falar de Orange nos últimos meses. O mangá vem fazendo muito sucesso no Japão e, com ótimas vendas, quebrou recentemente a marca de 3 milhões de cópias em circulação, excelentes números para um mangá do gênero shoujo. 

 

A premissa gira em torno de Naho Takamiya, uma colegial que recebeu uma misteriosa carta, supostamente escrita por ela mesma no futuro. Na carta ela conta que vive uma vida cheia de arrependimentos e deseja ajudar a jovem Naho a impedir que algo muito ruim aconteça com Kakeru Naruse, um novo colega de classe que ela conheceria no mesmo dia que recebeu a carta e por quem havia de se apaixonar. Obviamente Naho não bota muita fé de que as previsões vão realmente acontecer, mas depois de alguns acontecimentos se confirmarem, ela passa a acreditar que realmente a carta é verdadeira. 

 

Orange

Edição brasileira de Orange


O mangá de Ichigo Takano foi publicado no Japão originalmente na revista Bessatsu Margaret da editora Shueisha, porém depois de supostos problemas pessoais da autora o mangá foi interrompido e voltou a ser publicado mais de um ano depois em outra revista de outra editora, a Manga Action da Futabasha. O curioso foi a história migrar de uma revista shoujo, voltada para meninas adolescentes, para uma seinen, normalmente com histórias voltadas ao público masculino adulto. 


No Japão o mangá foi concluído recentemente com 5 volumes encadernados e em breve vai ganhar uma adaptação em live-action que está sendo muito aguardada pelos fãs. No Brasil, Orange foi um dos principais anúncios da editora JBC durante o Anime Friends de 2015 e chegou nas bancas em outubro.


Vale a pena (tentar) mudar o seu futuro? 


Essa foi a pergunta que ficou na minha cabeça ao terminar esse primeiro volume, mas antes de comentar sobre isso, vamos análisar o que nos foi apresentado até aqui. 

 

Em primeiro lugar, Orange é um mangá de narrativa muito dinâmica, onde os fatos são apresentados de maneira abrangente, clara e objetiva, o que torna a leitura rápida e prazeroza. Texto e desenhos se completam de maneira delicada e envolvente, a autora sabe explorar muito bem as expressões faciais em sua arte, conseguindo com isso representar emoções e sentimentos de forma bem sutil e nas mais variadas situações. 

 

Naho leva uma vida escolar normal, ao lado de um seleto grupo de amigos, seus companheiros para todas as horas. No primeiro dia de aula do segundo ano colegial eles conhecem Kakeru, um aluno transferido que veio de Tóquio e, para enturmar logo o novo colega de classe, Suwa, um dos amigos mais próximos de Naho, convida Kakeru para acompanhá-los em um passeio ao fim da aula. Ele reluta um pouco, mais aceita o convite e acaba se dando muito bem com o grupo de amigos. 

 

 

 

Depois desse dia Kakeru desaparece da escola durante algumas semanas e, quando retorna, não dá uma explicação muito convincente para sua ausência. Naho fica preocupada, pois através da carta, descobre que no futuro sente um grande arrependimento por não estar do lado de Kakeru em momentos de dificuldade e que, dentro de 10 anos, Kakeru, a pessoa por quem se apaixonaria, não estaria mais entre eles.

 

A Naho do presente fica cada vez mais convencida de que o conteúdo da carta é real, mas ela começa a se questionar se realmente vale a pena saber o futuro e tentar fazer algo diferente para alterá-lo. Ao longo dos primeiros capítulos, Naho tenta lidar com essa situação de maneira inteligente, pensando em cada passo que deve tomar de maneira meticulosa, mas lidar com suas próprias escolhas e sentimentos, para sair de sua zona de conforto e alterar o futuro, pode ser um desafio maior do que ela esperava. 

 

A intereção de Naho, Kakaeru, Suwa e outros personagens centrais é muito interessante. Cada um tem seus problemas, conflitos e, é claro seus sentimentos, e com a repentina mudança no comportamento da Naho, que tem sua atenção voltada apenas para Kakeru, um certo incômodo poderá surgir em outros membros do grupo. Ainda não sabemos de que forma eles vão lidar com essa situação e nem por quanto tempo a Naho vai conseguir manter em segredo a existência de sua carta do futuro. 

 

 

 

Nesse primeiro volume também vamos conhecer as versões adultas de Naho e seus amigos através de alguns flashforwards. Na carta para seu "eu" do passado, Naho se declara uma pessoa cheia de arrependimentos, porém o que vemos no futuro, pelo menos nesse primeiro volume, não corrobora muito com tal afirmação, pois nos foi apresentada uma jovem adulta, casada com um homem que a ama e com uma linda criança para criar. Apesar do sentimento melancólico estampado em seu rosto, na própria carta ela diz que muitos momentos de alegria a esperavam nos próximos anos e que deveria aproveitá-los ao máximo.

 

Seus amigos também parecem estar levando a vida sem muitos problemas, apesar de não ser o mar de rosas que imaginavam na adolescência. Também ficamos sabendo que eles já não possuem o mesmo contato de antes, mas até aí, nada de mais, são as mazelas da vida adulta a que todos nós estamos sujeitos...

 

Agora voltamos a questão central que ficou nesse primeiro volume: "Vale a pena (tentar) mudar o futuro?", vale a pena abrir mão de dez anos de história, de lutas, de superação e também de alegrias, largar tudo por uma lembrança do passado, abrir mão de sua família, suas experiências, tudo isso por uma paixão de adolescente? Por mais que existam arrependimentos em nosso caminho, até que ponto, tudo aquilo pelo que passamos foi importante para formar a pessoa que somos hoje?

 

 

 

A versão adulta de nossa protagonista parece carregar sobre si uma culpa que não deveria estar em seus ombros. Para se livrar desse sentimento, ela tenta mudar de alguma forma o seu próprio destino e também o das pessoas ao seu redor. Se pararmos para pensar, quem nunca teve vontade de voltar atrás e mudar algumas escolhas "erradas" que fizemos no passado? O grande problema é que nunca levamos em consideração que tipo de consequências isso poderia trazer. 

 

Talvez essa atitude de tentar mudar o passado, na verdade, nos mostre o quanto somos ingratos e egoístas, mesmo que isso fosse realmente possível, seria justo com todas as pessoas ao nosso redor? Por mais que não seja, será que seríamos capazes de resistir a tentação de mudar toda nossa vida para buscar um novo destino se tivéssemos uma chance?  

 

"Nunca estrague seu presente por um passado que não tem futuro." (Dalai Lama)

 

Me preocupo que tal escolha da protagonista tenha sido precipidata e que ela corra o risco de jogar fora todas as coisas importantes que conquistou nesses 10 anos. O que será que ela vai precisar sacrificar em troca dessas novas escolhas, desse novo destino? Será ela capaz de se manter firme em suas decisões? Essa é a jornada que vamos acompanhar no decorrer dessa linda história e espero que Takano nos leve por um caminho interessante, cheio de flores e também espinhos, mas com um final emocionante para uma história que começou tão interessante. Nos vemos no próximo volume! 

 

Ficha Técnica

História e Arte: Ichigo Takano
Status no Japão: Completo; 5 volumes
Editora no Brasil: JBC
Editora no Japão: Futabasha
Formato: 13,5 x 20,5 cm, cerca de 220 páginas
Preço: R$ 14,90 
Classificação etária: 14 anos
Avaliação: 9,5/10

 

© Ichigo Takano / Futabasha


Fábio[portuga] é redator de notícias para a Crunchyroll.pt, e ficou apaixonado pela história de Orange, ele não concorda com a postura da Naho do futuro, mas quer ver o que vai acontecer com a Naho do presente e sua turma. Visite o seu perfil e siga-o no Twitter: @portugassis. Clique aqui para ler outros posts do autor.

Outras notícias principais

10 comentários
Ordenar por:
Hime banner

Experimenta a nova Crunchyroll Beta

Quero experimentar