[Resenha] FINAL FANTASY VII REMAKE: Uma nova Midgar o aguarda

O Remake nos relembra o que tornou o jogo original tão icônico e abre o caminho para novas possibilidades

Final Fantasy VII Remake

 

Um assunto que gera intermináveis discussões é sobre qual é o melhor Final Fantasy. Acaba que, nesses mais de 30 anos de franquia, todos têm seu FF favorito. Há, sim, os considerados mais populares e os que se sobressaem por terem sido um marco quando lançaram.

 

Final Fantasy VII é, antes de qualquer juízo de valor, um jogo importante. Assim como o primeiro FF saiu em um momento financeiramente complicado para a Square, o VII veio quando a Square tomou a decisão de romper a parceria de longa data com a Nintendo para alçar voos mais altos ao lançá-lo em formato de CD-ROM no primeiro PlayStation. Em 1997 ele foi um marco, ajudou a popularizar o JRPG no ocidente e até hoje é lembrado por isso e por muitas outras coisas.

 

Nos anos seguintes, especialmente na virada do século, ele se manteve relevante, graças aos outros jogos e animações derivados do Compilation of Final Fantasy VII, uma franquia midiática que expandiu a experiência do jogo original. Nesse meio tempo, uma vontade surgiu entre os fãs: a de que aquele jogo de 1997 fosse refeito com as tecnologias dos tempos atuais. Demorou mais alguns anos, a própria Compilation foi encerrada e um remake daquele jogo voltou a ser só um sonho distante. Até que na famosa E3 de 2015 a Square Enix fez a promessa aos 4 ventos: ela se comprometeu a fazer um remake de Final Fantasy VII.

 

Final Fantasy VII Remake

 

O Final Fantasy VII Remake é especial por vários motivos. Claro, tem o fato de ser a realização do sonho de muitos fãs que pediam há mais de 10 anos, mas ele também é marcado por ter na equipe de desenvolvimento muitos desenvolvedores que trabalharam no jogo original. Com a diferença que agora eles carregam mais de 20 anos de experiência fazendo jogos e com o remake eles puderam revisitar aquele mundo mais com o que aprenderam e com novas ferramentas à disposição.

 

Começar por Tetsuya Nomura, o diretor principal. Apesar de no VII original ele ter ficado encarregado “somente” do design dos personagens, ilustrações e um pouco na história, ele entende o universo do jogo extremamente bem, tanto que foi o diretor do longa Final Fantasy VII: Advent Children lançado em 2005 e que dá continuidade aos acontecimentos do jogo original. Nesse meio tempo ele tacou outros projetos e até encabeçou uma série como Kingdom Hearts. No Final Fantasy VII Remake vemos muito do que ele aprendeu dirigindo outros jogos sendo aplicado aqui.

 

Completam a lista de veteranos Yoshinori Kitase, o produtor do remake e que foi o diretor do FF VII original. É ele que mais dialoga com o público sobre o que o novo jogo se propõe em ser. Kazushige Nojima é o roteirista tanto do jogo de 1997 como do remake e nesse meio tempo ele trabalhou na história de diversos jogos da série principal do Final Fantasy e Kingdom Hearts. Nojima especialmente pôde retrabalhar cenas e diálogos, que finalmente serão faladas e interpretadas.

 

Isso sem contar uma verdadeira força-tarefa (o jogo conta com três diretores, cada um responsável por um aspecto-mor do projeto) que inclui tanto veteranos como novatos e é verdadeiramente maravilhoso perceber isso enquanto se joga o remake.

 

Falando do principal aqui: o remake que traz um jogo de 1997 para 2020. Todas as partes que você joga no original, você encontra de alguma forma no remake do PS4, porém expandido, mais detalhado e mais trabalhado. Desde o início do seu anúncio ficamos sabendo que ele iria adaptar apenas a primeira parte do primeiro CD. Ele iria adaptar um trecho que durava aproximadamente 10 horas na versão do PlayStation 1. No remake para PS4 isso resultou em um jogo que você termina sua história em aproximadamente 30 horas, sem se arrastar, ou correr demais.

 

Final Fantasy VII Remake

 

As partes que ele expande foram muito bem-vindas: passamos mais tempo nas comunidades dos setores de Midgar, vendo como as pessoas vivem lá, ajudando com seus problemas em forma de side-quests e tudo é mais vivo. Momentos que no jogo de 1997 acontecem com muita pressa e sem muita explicação, aqui são tratados com mais calma para acompanharmos todos os desdobramentos do que está acontecendo e aprofundar as interações e relacionamentos entre os personagens, com destaque ao trio Jessie, Biggs e Wedge que passaram rapidamente no jogo original, mas que no remake tem seus momentos para brilhar e se tornarem marcantes. Além de aprofundar as motivações e dilemas dos protagonistas como Barrett, Tifa e Aerith. Devo confessar que no capítulo 12 ocorre algo que eu já sabia que seria emocionalmente impactante, porém quando vi como ficou no remake eu cheguei até a chorar de emoção.

 

Final Fantasy VII Remake

Faça o máximo de side-quests possíveis. Elas  podem resultar em situações chamadas “Descobertas” onde vemos mais interações de Cloud com seus companheiros

 

Eu tinha certo medo de que eles fossem descartar as coisas mais bregas do jogo original e acharam que não seria condizente com a ambientação mais realista do remake. Porém, fiquei aliviado em ver que ele abraçou os momentos mais bregas e bizarros do original. Bate bocas entre os protagonistas por besteiras, falas exageradas e personagens caricatos estão presentes no remake, assim como as situações legitimamente cômicas.

 

O combate está um primor: é definitivamente mais ação, mas há bastante gerenciamento de comandos e de habilidades únicas de cada personagem. No fácil o jogador pode ir jogando só metralhando o botão de ataque, mas haverá momentos que será preciso analisar os padrões dos inimigos, suas fraquezas e pontos fracos para atacar apropriadamente. É tudo bastante fluído, empolgante e épico. Há chefes que possuem diversas fases, querendo estratégias específicas para lidar com a nova situação que se apresenta. A ideia do jogo ficar em uma super câmera lenta para o jogador não se sentir agoniado em escolher a melhor habilidade para a situação da batalha foi genial, sem falar que é um efeito muito maneiro.

 

 

É possível alternar entre os membros do seu grupo, cada um com uma jogabilidade distinta e uma função no combate. Cloud pode ser considerado o padrão básico de ataque físico, Tifa é mais ágil e permite realizar longos combos que atordoam os inimigos, Barrett é o seu homem na hora para atacar inimigos voadores e distantes e Aerith também é ótima com inimigos à distância e conta com habilidades defensivas e regenerativas bem interessantes.

 

O mais impressionante é que mecânicas que são icônicas no jogo original estão presentes no remake e ainda são divertidas. O uso de Matérias continua sendo simples e muito intuitivo. Vendo-as evoluindo e seus efeitos em combate continua tão bacana quanto no jogo original. Final Fantasy VII Remake ainda carrega uma quantidade considerável de minigames, porém menos estressantes e com controles bem melhores.

 

Final Fantasy VII Remake

 

Visualmente o jogo está realmente impressionante. Em termos de detalhes dos protagonistas e expressividades, os gráficos são equiparados (senão, superiores) até ao filme do Advent Children, e tudo é rodado in-game! Ver os personagens se movimentando, seja andando a esmo pela cidade ou nos combate, é de encher os olhos, tamanha a fluidez e quantidade de animações que fizeram. Ver a espada de Cloud refletindo a luz do ambiente de forma tão real é deslumbrante!

 

Apesar disso, eu o joguei em um PS4 básico e percebi uma pequena demora de renderizar texturas do cenário e objetos mais distantes. Nada realmente decepcionante, mas dá para notar que o jogo está empurrando ao máximo o que o console consegue. Quando ele for portado para PC e outros consoles (quem sabe até para os consoles da próxima geração) certamente estará tudo mais detalhado e bem renderizado.

 

Final Fantasy VII Remake

 

Na questão de músicas, Final Fantasy VII Remake está espetacular. Nobuo Uematsu deixou um legado enorme e que toda a equipe reconhece isso. Ele pessoalmente recomendou Masashi Hamauzu (que compôs músicas icônicas para Final Fantasy X, XIII e World of Final Fantasy) para trabalhar na trilha sonora do jogo. Hamauzu, extremamente honrado pela indicação pessoal, aceitou o desafio e, segundo ele, para respeitar o trabalho feito por Uematsu-san, deixou que as músicas originais o tocarem para criar algo que o remake pedia, não apenas recriar as trilhas originais.

 

Isso resultou em uma verdadeira força-tarefa musical, que contou com ONZE compositores realizando toda a trilha sonora do jogo. Enquanto no original tínhamos uma música de batalha padrão, no remake essa mesma música possui dezenas de versões, para diferentes batalhas E para diferentes fases de uma única luta. Praticamente não se ouve uma música se repetir nos momentos principais da história, todas muito bem feitas e marcantes. É definitivamente o quesito que eu estava com maior hype no remake e que no final foi a coisa que eu mais amei no jogo inteiro. Até agora não consegui achar uma única música ruim nele.

 

Final Fantasy VII Remake

Você também pode coletar ou comprar discos que podem ser ouvidos em Jukeboxes espalhados pelo jogo

 

Um dos elementos expansivos de Final Fantasy VII Remake são suas side-quests. A princípio estive com um pé atrás porque à primeira vista a estrutura delas me lembrava muito a de Lightning Returns: Final Fantasy XIII (não por menos, pois um dos diretores do remake, Motomu Toriyama, foi diretor da trilogia do FF XIII), que eram extremamente longas, exaustivas e tediosas. Porém em Final Fantasy VII Remake elas ficaram bem agradáveis. Não são muitas, ocorrem em capítulos que são bem-vindas e são bastante simples e diretas. Tanto é que, quando você conclui o objetivo principal (pegar uma coisa, derrotar um inimigo, etc...) o jogo de dá a opção de automaticamente ir direto ao NPC que requisitou a side-quest para completá-la de uma vez.

 

Final Fantasy VII Remake

O jogo oferece também um simulador de combate onde podemos enfrentar versões virtuais de deidades e ao derrotá-las, ganhamos matérias para invocá-las em combate!

 

Agora, algo que não me agradou nem um pouco foram alguns capítulos específicos onde tínhamos que atravessar um labirinto desnecessariamente emaranhado para atravessar uma área. São áreas enormes, e eu precisei consultar toda hora o mapa porque nem sempre seguir em linha reta até o objetivo me levava até ele, exigindo que eu desse uma longa volta para chegar lá.

 

Um dos maiores focos no remake era Midgar, a cidade que acontece todo o jogo. No original a gente acaba passando um tempo relativamente pequeno nela, apesar da nossa memória coletiva querer dizer que praticamente vivemos uma vida lá dentro. Cientes disso, os desenvolvedores foram muito cuidadosos em recriar Midgar na magnitude, proporção e vida urbana que ela merece. Você fica desnorteando com o tamanho colossal das construções, se sente acolhidos pelas comunidades que visita e sente o clima suburbano que dialoga tanto com o filme do Advent Children, como com o jogo original. É uma cidade com suas sujeiras, corrupções e nojeiras (quase todas cortesias da Shinra), mas com muito coração por parte de seus habitantes e protagonistas que constroem no meio dos entulhos um lugar para chamar de lar.

 

Final Fantasy VII Remake

 

Por essas e outras que Final Fantasy VII Remake faz mais do que o dever de casa de revisitar o jogo original com as tecnologias de hoje. Ele é a prova de dedicação e de respeito que os desenvolvedores tiveram em relação ao icônico jogo de 1997, especialmente aqueles que trabalharam no jogo original. Tudo nele é feito acima da média, é recheado de momentos épicos, engraçados, emocionantes e que são um enorme prazer de se jogar, assistir e experienciar. Um caminho novo se abriu. Ele é desconhecido e pode até dar medo, mas, pelo que pude ver neste remake, estou seguro de que ele levará para uma grande aventura.

 

Final Fantasy VII Remake

 

Caso tenha interesse em ver um pouco dos bastidores do remake de Final Fantasy VII, recomendo que veja os cinco episódios do documentário Inside Final Fantasy VII Remake, todos disponíveis com legendas em português!

 

Episódio 1: Introdução

Episódio 2: História e Personagens

Episódio 3: Combate e Gameplay

Episódio 4: Música e Efeitos Sonoros

Episódio 5: Visual Design




 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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