[ENTREVISTA] Roteirista de The God of High School revela os desafios e recompensas ao escrever para um anime de ação

Uma entrevista com a roteirista Kiyoko Yoshimura

The God of High School


The God of High School, o mais novo projeto da Crunchyroll Original, é disparado um dos títulos mais aguardados desta temporada. Este anime cheio de artes marciais baseado na série WEBTOON de Yongje Park e que estreia HOJE é algo que vale a pena conferir para quem precisa saciar sua vontade por animes de luta!

 

Em preparação ao lançamento de hoje, tiramos um tempo para conversar com Kiyoko Yoshimura, a roteirista de The God of High School! No passado ela foi responsável pelo roteiro de animes como GRANBLUE FANTASY: The Animation, GARO -VANISHING LINE-, Sonic X e agora The God of High School. Ela nos contou tudo sobre seu trabalho: desde seu cronograma diário como roteirista, bem como os desafios de escrever cenas de ação e as muitas razões pelas quais você deveria assistir a The God of High School nesta temporada!



Como você iniciou sua carreira como roteirista de animes?

Eu sempre assisti a muitos animes porque eu gostava, mas de início eu não almejava em ser uma roteirista. Eu era uma otaku que esperava em ser uma autora de light novels e publicar o que escrevesse para revistas toda hora. Acabou que eu conheci um certo roteirista famoso em um certo site de fãs de um certo anime e começamos a trocar e-mails. Naquela época houve uma redução na equipe de produção do anime devido à explosão na quantidade de séries de anime sendo exibidas, então o roteirista me perguntou se eu queria fazer os roteiros para o projeto para o qual eles estavam fazendo a composição da série. O projeto era Jibaku-kun [conhecido no ocidente como Bucky] e eu já era fã do Shibata-sensei, o autor da obra original. Consegui entrar de cabeça nesse projeto pois eu já tinha lido o mangá. Então esse foi o meu primeiro sucesso, bem como o meu ponto de partida para chegar onde estou agora.

 

The God of High School


 
Quais desafios específicos você enfrenta como roteirista ao adaptar um roteiro para anime a partir de um material original existente?

Quando estou em uma função criativa, eu procuro colocar coisas que eu pessoalmente gosto e considero atraente para a série, seja seus personagens, a visão de mundo ou a ambientação, e então eu foco nesses sentimentos positivos conforme eu escrevo. Caso eu não sinta nada de positivo vindo da série que o autor escreveu, então não posso criar algo que as outras pessoas irão gostar. A partir disso, eu escrevo os roteiros levando em consideração o visual que o diretor quer, o que todos esperam que o anime vai será e de uma rede de outras opiniões.


 
Existem algum desafio recorrente sobre roteirizar para um anime que os fãs podem não perceber?

Isso é algo relacionado à pergunta anterior, mas geralmente sou do tipo que prefere escrever anime com base em sentimentos positivos, seja "Isso é divertido", "Eu gosto disso", "Isso é muito interessante" ou "Isso é tão legal." Fico tão feliz quando os espectadores olham para algo que eu achei incrível e falam como aquilo é realmente incrível.


 
Como você veio trabalhar em The God of High School?

Eu trabalhei com o diretor [Seong Ho] Park em VANISHING LINE do estúdio MAPPA e o produtor Otsuka me pediu para trabalhar neste projeto com eles. VANISHING LINE foi muito bem recebido e mostrou para mim o quão incrível é o trabalho do diretor Park, por isso aceitei a proposta imediatamente. Além disso, pessoalmente eu amo histórias de lutas e contos sobre o amadurecimento de jovens.

 

The God of High School


 
Como é adaptar uma série WEBTOON em comparação em adaptar um mangá?

Eu não notei muitas diferenças. Conforme o roteiro vai sendo feito, acredito que a melhor coisa de séries baseadas em histórias em quadrinhos é que a composição visual de cada cena da história já existe e podemos ver a imagem que queremos criar desde o começo. No caso de GOH, a arte e composição das cenas de luta são incríveis, então essas são as principais referências que uso quando escrevo o roteiro.


 
O que na história de The God of High School lhe chamou mais atenção quando você leu o material original?

O fato que Mori, Daewi e Mira começam tão distantes, mas que gradativamente vão ficando mais próximo e criam laços de companheirismo. Daí, após Ilpyo aparecer, a cena em que os quatro aparecem se distanciando, um de costa para o outro, realmente me comoveu. Também tem as esperanças não correspondidas da vida de Jegal... Ele é um antagonista, mas só condená-lo não irá ajeitar as coisas e isso me fez pensar o qual duro esse tipo de mundo é.


 
Poderia nos contar como é o dia-a-dia de uma roteirista? Como você organiza o seu tempo?

O trabalho de um roteirista de anime consiste em reuniões semanais lendo os roteiros uns dos outros, discutindo pontos problemáticos, voltar para casa e fazer as correções para então entregar novamente e se reunir com eles de novo. É uma rotina bem mundana e trabalhar em GOH não é tão diferente de trabalhar em qualquer outro anime. Nossas reuniões contam com o envolvimento de muitos membros da equipe que moram no exterior, então fazemos muitas reuniões remotas, mas é só isso. Quanto a minha vida em casa, eu também sou mãe de um filho no ensino fundamental, então faço seu café da manhã e o levo para escola, ajudo no dever de casa, limpo a casa... e escrevo alguns roteiros nesse meio tempo. Quando fico muito ocupada, peço para minha mãe, que é minha vizinha, para ajudar com alguns afazeres de casa. Não consigo expressar o quanto eu sou grata pela minha família.


 
Como é o processo de compor um roteiro, do começo do projeto até a entrega final?

O processo varia dependendo do projeto, mas geralmente, quando fico responsável pela composição da série, eu começo com um esboço inicial da série como um todo, que é revisado e discuto com o diretor e a equipe do projeto. Daí seguimos para o enredo de cada um dos episódios... decidindo qual papel o número de episódios desempenhará na série, determinando os pontos em que os desenvolvimentos acontecem, racionando o trabalho e a partir daí cada roteirista começa a trabalhar em seus roteiros. Às vezes nós trabalhamos com o roteiro de um episódio que depende de como o episódio anterior termina e, como esse episódio ainda não está finalizado, fazemos os ajustes necessários. Quando os roteiros de todos os episódios estão terminados, passamos eles para os departamentos de produção e animação e isso conclui a função do roteirista. A partir daí, ficamos no aguardo para ver o produto final junto com os fãs!

 

The God of High School


 
Poderia nos dizer como exatamente uma cena de luta fica quando você a roteiriza? O quanto do fluxo da luta está no seu roteiro?

Eu ouvi dizer que coisas como séries de tokusatsu e live-action as cenas de lutas não são detalhadas no roteiro, mas sim compostas em cena por especialista de filmagem e de atuação. Mas a maioria dos projetos de anime pedem que as cenas de luta sejam de certa forma descritas no roteiro. O projeto se conecta diretamente à distribuição de tempo e ao número de desenhos necessários para o episódio, de modo que isso precisa ser controlado na fase do roteiro. No mínimo, o roteiro precisa explicar quem faz o que e o efeito que isso causa. Eu não costumo escrever cada soco e chute em detalhes, mas em uma cena onde, por exemplo, um personagem que pensavam ser destro de repente usa sua mão esquerda e vence, esses detalhes precisam estar claros no roteiro. No caso de GOH, as cenas de luta são compostas nos mínimos detalhes na obra original, então eu costumo seguir eles no roteiro do anime. O mais importante era garantir que as mudanças nos sentimentos dos personagens enquanto lutavam estivessem de acordo com os destaques visuais da animação. Se focarmos apenas na descrição visual, as expressões emocionais dos personagens estarão de fora, e então eles ficarão se esmurrando com imagens ofuscantes. Representar as emoções em cena através de monólogos, flashbacks, expressões faciais de outros personagens, voz do locutor, etc... é a parte mais importante do roteiro.


 
A Coreia do Sul é um cenário bastante inédito para um anime. Escrever para um cenário não japonês do mundo real afetou a sua abordagem com o seu trabalho?

Apesar de muitos animes feitos no Japão tenham ambientação no próprio Japão, há vários outros que não, então eu não percebi tanta diferença. VANISHING LINE, no qual eu trabalhei com o diretor Park, era ambientado nos Estados Unidos! Mesmo assim, apesar do Japão e a Coreia serem geograficamente próximos, seus idiomas são bem diferentes (especialmente a pronúncia), então tive dificuldade com coisas como nomes próprios e nomes de lugares.

 

Uma série de ação como The God of High School nunca é só ação, tem também muitos aspectos cômicos e emocionais. Há alguma cena específica nesse tipo de tom que você mais gostou de ter escrito?

Essa cena seria o aniversário do Mori. É uma cena onde tudo que ele conquistou se junta para forma um forte laço. Murakoshi-san, o roteirista responsável pelo roteiro desse episódio, deixou aquela cena extremamente emotiva. Uma outra é a rodada final das preliminares entre Mori e Daewi. Trata-se do primeiro grande clímax da série e o drama pessoal de Daewi fica profundamente envolvido na luta, então dei o meu melhor para tornar essa cena bastante intensa.

 

The God of High School


 
Teve algum personagem de The God of High School que você mais gostou de escrever?

Todos os personagens possuem seus charmes únicos, só que é difícil de escolher apenas um quando é muito mais divertido ver eles trombando entre si. Todos são personagens memoráveis e fortes, mas também possuem um lado brincalhão e até fraquezas bastante fofas que vem à tona de uma maneira incrível quando eles interagem. Mori e Daewi, Daewi e Mira, Ilpyo e Jegal, Comissários Q e O, Comissário Q e Daewi, Taejin e o jovem Ilpyo... É, eu não consigo escolher (risos).


 
The God of High School é, obviamente, a mais nova produção da Crunchyroll Original. Como é trabalhar nesse projeto quando comparado com outras produções padrões que você já esteve envolvida?

O diretor Park veio com vários planos muito ambiciosos e ele é extremamente apaixonado em torná-los em realidade, então não consigo deixar de sentir que este projeto valerá a pena todo o nosso esforço. Foi muito empolgante trabalhar nele e estou muito empolgada em ver quando for ao ar.


 
Por fim, gostaria de dizer algo para os fãs ocidentais que aguardam ansiosamente pela estreia do anime?

Todos nós da equipe do anime demos tudo de nós para recriar fielmente os desenvolvimentos intensos presentes na obra original em formato de animação. Diferentemente de uma série em quadrinhos onde você lê no seu próprio tempo, a animação puxará vocês para o mundo de The God of High School com a velocidade e o impacto de uma onda quebrando na praia. O drama e a ação estão bem frenéticos, não vai dar tempo nem de piscar! Espero que gostem!

 


 

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Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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