ENTREVISTA: MC Maha, otaku e funkeiro, fala um pouco sobre sua trajetória de vida e como é criar músicas de anime

Um bate papo com o funkeiro e otaku de carteirinha

Os fãs de anime estão em todos lugares, inclusive no mundo da música! A equipe de redação da Crunchyroll teve a incrível oportunidade de bater um papo bem legal com o MC Maha, o funkeiro que ficou famoso por sua criatividade sensacional fazendo funks de Harry Potter, Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas... e não só isso! O MC Maha também fez vários funks de animes: você pode encontrar no canal do YouTube dele funks de One Piece, Naruto, My Hero Academia, Demon SlayerHaikyu!! e diversos outros. Misturando dois nichos muito diferentes e que costumavam ser muito distantes, o MC Maha tem feito uma legião de fãs com suas músicas e talento e ficando cada vez mais popular com seu carisma e alegria contagiantes.

 

Ele falou um pouco com nossa equipe sobre como chegou onde está hoje, sobre os desafios que passou em sua vida, e é claro: animes. Se você quiser descobrir sobre seus animes favoritos, personagens favoritos, tatuagens de anime e o processo criativo para escrever seus funks, leia a entrevista completa logo abaixo!

 

Imagem: MC Maha - Konohatron (Clipe Oficial)

 

Poderia se apresentar?


Oi! Meu nome é Dominic, mas também sou conhecido como MC Maha. Eu nasci em Trindade e Tobago, no Caribe. Minha mãe estava grávida, foi fazer intercâmbio lá, e curtiu tanto que acabou decidindo morar por lá. Ficamos em Trindade e Tobago até meus quatro anos de idade, e depois voltamos para o Brasil pra ficar mais perto da família da minha mãe e do meu pai, que é da Nigéria, mas estava morando aqui no Brasil. Desde então, estamos por aqui em Brasília mesmo.

 


 
Poderia nos falar um pouco como foi sua trajetória até virar músico?


Sempre fui muito ligado em teatro e música, sempre gostei do meio artístico. No ensino médio, minha turma teve uma apresentação teatral em que eu acabei me saindo muito bem, e meu desempenho acabou ajudando a turma toda a ser aprovada na apresentação. Foi por aí que passei a me interessar mais cabulosamente por isso. No fim do ensino médio, quando eu tinha 17 anos, comecei a trabalhar como modelo, e fiquei uns 4 anos trabalhando com isso. Eventualmente, eu decidi que precisava fazer uma faculdade, escolhi Educação Física — e isso acabou me afastando do ramo da moda. Só que depois de um tempo, passei a não curtir tanto o curso de Educação Física e decidi mudar para Teatro... Mas não demorou muito para eu acabar desanimando com umas coisas do mundo acadêmico e resolvi vazar de vez. Depois disso, fiquei fazendo uns trabalhos de freelancer aqui e ali, só que de vez em quando demorava muito para aparecer oportunidades, e acabei tendo que trabalhar com outra outras coisas: trabalhei um pouco como garçom e depois fui num hotel trabalhar como mensageiro, onde fiquei 1 ano. Foi durante o trabalho nesse hotel que acabei conhecendo a cantora Ludmilla, na época em que ela estava estourando com a música “Hoje”. Nesse dia, enquanto eu ajudava com as malas dela, subi no elevador com ela e com o pai dela e decidi puxar papo. Contei pra eles sobre meu sonho de ser cantor, foi então que ela me falou pra eu não desistir e ir atrás, que eventualmente meu dia ia chegar. Uma semana depois disso, eu pedi demissão porque a Ludmilla me motivou a perseguir a carreira de cantor [risos]. Com isso, peguei meu violão e fui tocar na rua. Eu tocava na rodoviária e no metrô porque eram lugares de bastante movimento, então eu só largava o chapéu no chão e esperava. Eu decidi correr atrás de uma coisa que eu gostasse, mesmo que isso significasse ganhar bem menos dinheiro.

 


 
E quando foi que as coisas “começaram a dar certo” pra você? 


Um dia, uma amiga me passou um folheto de uma banda de axé que estava precisando de um segundo vocalista, então decidi fazer o teste e consegui passar. Era uma banda de samba-reggae, e fiquei quase 1 ano com eles... Mas o que eu sempre quis mesmo era cantar funk, então direto eu ficava tentando colocar um pouquinho de funk no repertório deles. No início, eles ficaram meio receosos, mas depois começaram a curtir, e isso acabou expandindo até o público deles. Foi por essa época que eu conheci o DJ WS. Aí, para ir gravar com ele, eu juntava meu cachê da época, então minha mãe e meu melhor amigo me ajudavam com um pouco de grana. Só que depois de gravar com o WS, eu não tinha onde publicar essas músicas, aí comecei a procurar um monte de página de funk e mandar e-mail pra eles para saber como fazia pra publicar lá, e me responderam que era só pagando um valor X. Então, novamente, com a ajuda do pessoal na questão financeira, eu comecei a produzir e lançar as músicas. A quarta música que eu lancei, que foi o funk de Harry Potter, explodiu muito — desde então, tenho vivido só de música. Em nenhum outro momento da minha vida eu quis outra coisa além de música. Era até doentio.

 

Imagem: MC Maha - Konohatron (Clipe Oficial)


 
E de onde veio suas ideias de escrever funks de anime?


Depois de lançar a música do Harry Potter, eu pensei: “Bom, esse funk deu muito certo, então preciso seguir essa receita pra manter esse engajamento”. Decidi fazer uns funks de Senhor dos Anéis, Guerra nas Estrelas... Foi aí que a galera começou a me mandar pedidos, porque eles viam que eu me adaptava e conseguia fazer música com qualquer coisa que eles me pedissem. No meio dos pedidos que começou a chegar um monte de sugestão pra funk de anime.

 


 
Como você começou a assistir animes? Consegue se lembrar qual foi o primeiro que assistiu?


Eu comecei assistindo animes na televisão, no Cartoon Network. Eu assistia muito Pokémon, eu era Pokemaníaco desde criança. Inclusive, meu aniversário de 5 anos foi temático de Pokémon. Charizard e Dragonite são meus Pokémons favoritos até hoje.

 


 
No seu canal do YouTube, o primeiro vídeo musical de anime foi um funk de One Piece. Essa foi também a primeira música relacionada a animes que você escreveu?


A primeira música de anime que eu fiz foi “Ninja da marola”, que era um funk de Naruto. Aí o YouTuber Davy Jones fez um react no canal dele e ficou falando que faltou referência. Com isso, eu me senti desafiado e acabei fazendo Konohatron, que estourou na época (e acabou ganhando até clipe uns meses depois). Eu nem planejava fazer Konohatron, mas depois que o cara disse que faltava referência, eu pensei pra mim “É mesmo? Agora vou fazer um cheio de referência”.

 


 
Como você achou o feedback do público a Konohatron, que explodiu? Acha que o sucesso dela influenciou de alguma forma a você seguir produzindo outros funks de animes? 


Eu acho que Konohatron fez o pessoal despertar uma curiosidade maior de como seriam funks de outros animes. E aí começaram a me pedir música de muitos e muitos animes. Comecei a assistir a My Hero Academia só porque pediram funk, e foi a mesma coisa com Demon Slayer e com vários outros. Foram animes que comecei a assistir só porque pediram funk e eu me apaixonei pela história.

 

Imagem: MC Maha (Instagram) - Arte por @ikki382

 

Konohatron tem um clipe muito criativo. Como foi gravá-lo?


A história do clipe de Konohatron é bem legal. Uma amiga minha que estava envolvida na produção tinha vários amigos otakus, aí ela chamou esses amigos pra gente gravar um clipe. Fomos num parque aqui perto e gravamos o clipe em 3 horas. Peguei minha JBL e minha capa da Akatsuki, bolei um roteiro bem rapidinho, não levou nem 20 minutinhos. Foi muito legal, porque nos divertimos muito enquanto gravamos.

 


  
De todas as músicas de anime que você já produziu, qual foi sua favorita? E por quê?


Eu não tenho uma só favorita, tenho algumas... Tipo a de My Hero Academia, a de Demon Slayer, a mais recente de One Piece e Konohatron. Eu olho pra essas e penso que realmente fiz algo muito bom nelas.

 


 
Como funciona seu processo de escrever as letras? Você assiste os animes com um papel e caneta ao lado, tomando notas? Ou você assiste tudo e depois escreve?


Tipo, eu não escrevo as letras antes. Eu vou assistindo e penso numas coisas, trocadilhos e tal, aí quando chego no estúdio pra gravar e ouço a batida, começo a bolar a música. Eu penso em coisas da história que posso transformar em pin** e xere**, em put*ria em geral, e aí a música vai saindo aos poucos… Se eu me sentar pra tentar escrever alguma coisa antes, vai ficar muito meia-boca, porque aí vou tentar ficar elaborando demais, não fica legal. Eu tenho que escutar a batida pra ver a que lugar ela me leva. Pra mim, funciona melhor fazendo na hora. A gente costuma criar essa batida juntos no estúdio. Tem música que a gente faz em 3 horas, outras em 2 horas, enquanto tem outras que leva uns 30 minutos. É bem doidão nosso processo.

 

Imagem: MC Maha - Konohatron (Clipe Oficial)


 
Hoje em dia, você já consegue assistir a algum anime e não ficar pensando em trocadilhos ou em formas de escrever uma música dele?


Tem uns que eu assisto tranquilo. Só acabo (inconscientemente) pensando em trocadilhos e ideias quando tô assistindo a um anime que muita gente tá me pedindo pra fazer. Teve um anime chinês que me pediram pra fazer música, mas aí achei muito chato e larguei mão. Isso acontece com alguns outros animes também, como Bungo Stray Dogs, que comecei a ver e até bolei alguma coisa, mas acabei enjoando do anime e não foi pra frente a ideia. Também teve casos de anime que eu assisti e gostei, mas quando fui bolar uma música, notei que não estava saindo. Mas não é tudo só música, também tem alguns animes legais que eu assisto só por prazer mesmo, como MEGALOBOX, que nem é tão conhecido assim, mas eu acho incrível.

 


 
Qual é o seu anime favorito? E por quê?


Mano, é One Piece… Ele me traz uma motivação de vida real, cabulosa. Antes de One Piece, meu anime favorito era Naruto, que tem uma história que te faz pensar fora da caixinha com relação às pessoas, sabe?  Antigamente, a gente tinha muito essa dualidade de bem e mal, mas eu acho que os animes em geral te mostram que não existe “bem e mal” puro, existem circunstâncias e motivações diferentes que fazem pessoas agirem de certa forma baseado em alguma coisa que ela passou na vida dela, e por isso que ela está fazendo aquilo. O anime, em geral, te faz ter essa visão um pouco mais humana e fora da caixa, que faz você não só olhar os dois lados, mas o contexto como um todo, porque as coisas são bem mais complexas do que parecem. One Piece me prendeu, porque pra mim, ele tem todas essas coisas que Naruto tem, mas parece um pouco mais… intenso. Além dessa coisa do “sonhar” em si, tá ligado? Claro, o Naruto é um grande sonhador, mas os personagens de One Piece têm uma determinação absurda... muito forte, (e talvez) até maior que os personagens de Naruto. O Naruto é o personagem mais determinado do anime Naruto, mas parece que em One Piece tem vários Narutos, sabe, com muita sede de vencer, muito sangue, muita dor e muita luta, é um bagulho muito tenso. Tenho pra mim que quando o Luffy se tornar Rei dos Piratas, eu vou estar lá com ele, realizando aquele sonho junto dele e da tripulação que acompanhei por tanto tempo. One Piece tem esse poder de me tornar parte da história. Não sei bem como verbalizar isso, mas o anime é muito intenso. Cheio de gente com muita força de vontade, é bom demais!

 

Imagem: MC Maha (Instagram) - Arte por @ikki382


 
E qual seu personagem favorito?


[Alerta de spoiler] Pra mim é difícil escolher entre o Luffy e o Zoro. Não tem como não gostar do Zoro, ele é um homão da porr*. Pra mim, naquela vez que o Zoro entrou na bolha que o Bartholomew Kuma  fez com tirando toda dor e sofrimento do Luffy, que estava quase morrendo, deu pra ver o quão fenomenal o personagem é. Essa cena da bolha de dor, pra mim, foi a cena mais icônica do anime inteiro, não tem como superar um negócio daqueles. Saindo de One Piece, também tem o Itachi, que é meu xodó da vida.


 
Pelo que vi, você tem algumas tatuagens relacionadas a animes. Pode nos falar delas?


Eu tenho 2 tatuagens de anime. Uma de One Piece, no peito, e a história dessa foi engraçada, porque eu tive um sonho que eu já tinha essa tatuagem, aí quando acordei pensei “mano, preciso tatuar isso”, então fui lá e fiz. Minha segunda é uma do Itachi, no braço, e essa foi um amigo tatuador que fez pra mim.
 


Em um tweet, você disse que criou a Akatsoka porque nos eventos de anime falavam que você não se parecia com nenhum personagem. Poderia nos contar um pouco mais sobre isso?


Ah, essa história é complicada. Quando eu era jovem, eu era tão fã de animes que comecei a ir em eventos... Um dia, fui num evento aqui de Brasília chamado “Kodama”, e a galera costumava ir de cosplay nele. Comprei minha roupinha da Akatsuki, porque eu queria ser o Itachi né, aí fui bem feliz. Isso foi lá em 2009, quando eu tinha 16 anos... Lá no evento, eu fiquei tentando juntar todos membros da Akatsuki, mas depois que eu consegui, o pessoal ficou me zoando porque não tinha personagem preto no anime, e eu estava lá vestido de membro da Akatsuki. Ficaram tirando sarro de mim... “Quem é esse aí? É o Pelé?” — e isso me fez pegar um certo ranço desse universo de anime na época. Fiquei pensando que realmente aquele não fosse meu lugar, que eu tinha que ficar ouvindo pagode ou sei lá. Felizmente, quando a galera começou a me pedir pra fazer música de anime, voltei a me reconectar com esse mundo dos animes e nunca mais saí.
 
 
 

Imagem: MC Maha (Instagram) - Arte por @lprates_arts


Quais animes você está assistindo atualmente?


Eu comecei a assistir Blue Exorcist e The God of High School. Quando assisti ao primeiro episódio de GoHS, fiquei maluco! Eu curto muito anime de porrada desse tipo. Meu irmão está assistindo Fire Force, estou achando muito doido, provavelmente vou começar e assistir em breve. Por último, também estou assistindo Ergo Proxy, que tem uma história meio maluca, mas é legal.

 


 
Gostaria de mandar um recado para os seus fãs?


Eu quero mandar um grande abraço para todos que curtem minhas músicas, e quero dizer que isso me traz muita alegria. Minha meta é juntar o que a gente mais gosta, anime, put*ria e muita alegria.

 

 

 

 

Gostaríamos de agradecer ao MC Maha, pelo seu tempo e disposição em responder nossas perguntas.


José S. (Skarz) é o editor-chefe da Crunchyroll.pt. Formado em Letras, não consegue se lembrar de um momento da sua vida em que mangás e animes não fizeram parte dela. Você pode encontrá-lo no Twitter em @_skarz.

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