RESENHA DE MANGÁ: Uzumaki - Volume Único (Devir)

As crônicas viscerais e desesperadoras da cidade de Kurôzu

Uzumaki

 

Certamente o nome de Junji Ito não lhe é estranho. Seja por seus mangás de terror como Tomoe (1987) e Gyo (2002), ou por seu amor por gatinhos, ele é uma pessoa que angariou reconhecimento pelo seu estilo de desenhar mangás e contar histórias. Há uma obra de sua autoria que se destaca das demais, da mesma forma que Akira Toriyama é lembrado por Dragon Ball ou Katsuhiro Otomo por Akira. Uma obra atemporal, que sintetiza tudo o que Ito é como mangaká de terror, e essa obra é Uzumaki.

 

Ito é conhecido por desenhar one-shots e mangás de poucos volumes, geralmente em formas de crônicas e histórias que costumam se encerrar em um ou em poucos capítulos. Uzumaki segue essa ideia: sendo serializado na revista Bis Spirits de 1998 a 1999 (com um capítulo especial saindo em 2000), foi encadernado em três volumes, que por sua vez foram compilados em um único volume duas vezes, sendo a segundo (de 2010) é a versão trazida ao Brasil pela editora Devir. Apesar de totalizar 17 capítulos, a história dura exatamente o que ela precisa durar, sem correr, ou sem ir devagar demais na sua narrativa.

 

Uzumaki

 

Na história, somos introduzidos a Kirie Goshima, uma jovem que nasceu e cresceu em Kurôzu, uma típica cidade litorânea do interior do Japão. Através de sua perspectiva e narração onisciente, somos apresentados à cidade, e seus estranhos e bizarros acontecimentos. Todas as histórias envolvem uma obsessão doentia e irracional por espirais. Seja por partes dos moradores, como pela própria cidade.

 

O mangá não demora em nada para mostrar o que veio: já nos dois primeiros capítulos somos apresentados aos personagens centrais e o início de uma compulsão por espirais, começando por detalhes no cenário da cidade. Isso vai até a afetar os familiares de Kirie e de Shuichi Saito, seu namorado. Começando com comportamentos repugnantes e indo para deformações surreais nas pessoas. Tudo isso já no começo da obra.

 

A arte de Junji Ito é incrivelmente detalhada e mostrar nos mínimos detalhes todas as representações de espirais, das mais diversas (e grotescas) formas possíveis. Podendo ir do mais simples desenho de espiral em uma cerâmica, até o mais estarrecedor dos body horror. Ito consegue expressar de maneira fenomenal as expressões de ansiedade, paranoia e pavor das pessoas, sem falar dos cenários incrivelmente detalhados e realistas.

 

 

Além do terror visual, o mangá inteiro possui uma tensão contínua, porque os acontecimentos e perigos trazidos pela chamada por Shuichi de “a maldição da espiral” são constantes e podem acontecer a qualquer momento e o pior: conforme a história segue, eles vão se tornando mais frequentes e vão se intensificando cada vez mais. O leitor quase não tem nenhum momento para respirar. A obra faz com que ele se sinta tão cansado mentalmente quanto Shuichi em ter que lidar com todas as situações e se esforçar ao máximo para se manter são.

 

Os primeiros capítulos contam histórias contínuas, para no meio do mangá haver um foco em crônicas, tratando de diferentes tipos de espirais como centro da história. Indo do mais evidente (como representações físicas no meio material) até situações mais interpretativas (como contorcionismo ou pessoas que anseia que todo mundo dê atenção para elas, como uma espiral que sempre converge o foco de quem olha para o seu centro).

 

 

O único momento que senti que uma das crônicas estava um tanto deslocado em relação ao restante da obra foi nos capítulos dedicados a contar um caso envolvendo um hospital e mosquitos.  Ainda é uma história de alta qualidade e dentro do estilo narrativo de terror de Junji Ito, porém foi a história que mais se distancia e que não possui quase nenhuma ligação com a temática maior envolvendo a maldição de espirais de Kurôzu.

 

Ainda que tenha histórias isoladas em capítulos, tudo vai convergindo para um fim bem definido. As sementes que são plantadas desde o primeiro capítulo, com acontecimentos aparentemente isolados, mas que vão se repetindo com maior intensidade e ganhando significado, com personagens dando suas teorias e ajudando o leitor a ter um note naquela loucura toda. Isso é o mais fascinante: nada é explicado por definitivo. Tudo são interpretações e suposições dos moradores, mas não há nada e nem ninguém que revelará o grande mistério da cidade, deixando ao leitor criar suas teorias por trás das bizarras espirais daquele lugar.

 

 

Ao terminar a leitura, percebi que todos os elogios que ouvia e via de Uzumaki eram verdadeiros. É uma obra que aborda um terror surreal, de origem misteriosa e que mostra acontecimentos de revirar o estômago de qualquer um. Nada no mangá é gratuito, é cuidadosamente articulado, construído e desenhado com muito esmero. Você se simpatiza com os personagens principais, chegando até a torcer que o pior não aconteça com eles, ao mesmo tempo que sentimos com eles o desgaste mental que é presenciar tantas atrocidades trazidas pela “maldição da espiral”.

 

É preciso estar pronto para mergulhar no furacão de agonia e horror contínuos da cidade de Kurôzu, pois assim como Kirie e Shuichi, você não conseguirá escapar de sua força que o compele a continuar na cidade até o seu inevitável fim.

 


 

A edição da Devir foi lançada originalmente em julho de 2018, possui a obra completa de Uzumaki em 656 páginas, além de contar com um prefácio de Kleber Ricardo de Sousa, um posfácio escrito por Artur Coelho, um comentário sobre o mangá de Masaru Sato e uma nota biográfica do autor Junji Ito.

 

Capa de Uzumaki

 

Sinopse:

 

“Acontecimentos grotescos começam a surgir em Kurôzu, a pequena localidade onde Kirie Goshima nasceu e cresceu. O vento sopra em curvas, folhas e ramos se enrolam e a fumaça expelida do crematório sobe desenhando redemoinhos funestos. Logo os humanos também são afetados pelo fenômeno helicoidal. Cabelos se envolvem em círculos, corpos se retorcem e pessoas se convertem em caracóis... Kirie tenta escapar da cidade para fugir da maldição da espiral...”

 

Uzumaki foi fornecido pela Devir para a Crunchyroll Notícias em sua versão digital.

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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