RESENHA: Como Farewell, My Dear Cramer retrata as dificuldades e os desafios do futebol feminino

Tanto o longa First Touch como a série em anime baseados no mangá de Naoshi Arakawa passam uma mensagem muito emocionante sobre a realidade do esporte

 

 

Apesar de possuir várias qualidades, infelizmente não se pode dizer que o futebol seja um esporte inclusivo, especialmente no que tange o público feminino. Por décadas as pessoas olhavam com estranheza para mulheres que jogavam futebol, chegando ao ponto de proibirem no Brasil, o tão popularmente conhecido como “país do futebol”, que elas jogassem o esporte. Tudo por causa de um decreto-lei do Estado Novo, que as impedia de “praticar esportes incompatíveis com a natureza feminina”. Sendo que este decreto-lei, criado na década de 40, perdurou até o ano de 1979.

 

Felizmente, o futebol feminino tem crescido ao longo dos anos, ganhando torcedores graças a jogadoras que viraram lendas-vivas como a Marta e a Formiga (que recentemente se despediu da seleção brasileira, após 234 jogos e sete Copas do Mundo), apesar de ainda não ter sequer uma pequena fração da popularidade do futebol masculino. Isso tudo que relato é sob o ponto de vista do futebol feminino no Brasil, há de se indagar como deve ser o reconhecimento e a torcida que jogadoras de outros países, como o Japão.

 

Só por trazer como temática o futebol feminino, o anime de Farewell, My Dear Cramer chama bastante atenção e inevitavelmente trabalha a principal problemática do esporte: as dificuldades que uma jovem passa, precisando se desdobrar para se ter o mínimo como jogadora de futebol e os obstáculos extras que surgem pelo descaso e desinteresse que permeia o esporte.

 

Antes de adentrarmos na história da obra, é preciso um esclarecimento antes. O filme em anime e a série para TV são baseados, respectivamente, nos mangás Sayonara, Football e Farewell, My Dear Cramer, ambos de autoria de Naoshi Arakawa, e o segundo dá continuidade aos acontecimentos do primeiro. Logo, o filme Farewell, My Dear Cramer: First Touch serve como início para a história que continua na série em anime: Farewell, My Dear Cramer.

 

 

Antes de tratar da problemática mais geral do futebol feminino japonês, o filme Farewell, My Dear Cramer: First Touch foca em um problema mais pessoal, ao acompanhar a infância de Nozomi Onda, uma garota que revela ter um talento nato para jogar futebol e que se diverte muito jogando com seus amigos de infância. Porém, os dias bons ganhando partidas e brincando de futebol acabam quando ela chega no 7º ano do ensino fundamental.

 

Após se acidentar durante uma partida no torneio masculino por conta de uma jogada de contato, o técnico decide não escalar Onda no time titular, temendo que o futuro da jovem no esporte fosse encurtado abruptamente por lesões causadas por jogadas assim contra os meninos. O que se segue é Onda dando todo seu suor, sangue e lágrimas para se tornar alguém apta para jogar sua primeira partida oficial, que se aproxima a cada dia que passa.

 

 

E nesse momento de “montagem de treinamento”, percebemos o quanto Onda dá tudo de si para melhorar tanto suas habilidades (já naturalmente boas) e seu condicionamento, porém todo o esforço dela serve para apenas diminuir a diferença física que há entre ela e os demais meninos do time, que vai ficando cada vez maior conforme todos eles crescem.

 

O personagem que ilustra essa mudança é Yasuaki Tani (apelidado por Onda de “Namek”). Na infância dos dois, ele era um garoto pequeno, um tanto introvertido e bastante chorão. Quando temos o salto no tempo para os acontecimentos do filme, ele já supera e muito a Onda em altura e em porte. Aliado isso está a inquietação e rebeldia típicas da adolescência que acaba criando uma fissura entre Namek e Onda que eram grandes amigos na infância e agora criaram uma animosidade.

 

 

Fica perceptível a frustração de Onda quando a realidade começa a ficar entre ela e o que ela mais quer fazer: jogar futebol. A decisão do técnico em não escalar Onda não é motivado por maldade (afinal, ele é um dos que mais reconhece o talento e o potencial da jovem), mas sim por preocupação de, caso ela viesse a se lesionar sério novamente, ela acabasse encurtando sua carreira no esporte. É uma situação que deixa qualquer um pensativo, até que Onda resolve fazer algo um tanto inusitado para participar da partida e enfrentar seu amigo de infância para provar o seu ponto.

 

 

Além de uma narrativa envolvente, o filme do First Touch é bastante bonito, com uma direção de arte competente, com direito a efeitos leves de partículas em determinados momentos. Ao mesmo tempo que mantém o mesmo estilo que veremos na série em anime, é visível o valor de produção tanto na animação, como nos efeitos visuais que ajudam a imergir os espectadores na ambientação do longa-metragem.

 

Após esse primeiro choque com a realidade, seguimos para a série em anime, que já nos momentos iniciais introduz ao espectador a mais dura realidade deste esporte: sua falta de apoio e de interesse pelo público japonês. Temos uma gravação de uma entrevista pós-jogo com a jogadora Naoko Nomi, antiga titular da seleção japonesa, relatando que, caso elas perdessem aquela partida, o futuro do futebol feminino certamente estaria condenado e correndo o risco de cair no esquecimento. Após uma abrupta interrupção na gravação, iniciamos a história do anime de Farewell, My Dear Cramer.

 

 

Passou-se algum tempo desde os acontecimentos de First Touch. Onda agora está no primeiro ano do ensino médio e, ao contrário do que gostaria de fazer inicialmente, ela acata o conselho do seu técnico do fundamental para participar do clube de futebol feminino do seu novo colégio. Nele, somos apresentados a diversas garotas, cada uma com sua personalidade única e chamativa, e com motivações diferentes em querer praticar futebol. É nesse novo ambiente que temos a surpresa que a Naoko Nomi é contratada para se tornar a nova técnica do time de futebol feminino, após a revelação de que ela é uma ex-aluna daquele colégio.

 

Aqui temos uma mudança considerável de foco: Onda agora divide os holofotes com as demais integrantes do clube de futebol feminino da escola, além dos técnicos, sendo um deles a própria ex-jogadora da seleção que retornou para a sua antiga escola para ser professora e dar seus primeiros passos como técnica. Cada um desses personagens possui sua história, problemáticas que vão sendo mostradas gradativamente e externalizadas em momentos decisivos, como as partidas oficiais.

 

 

É realmente bastante gratificante ver que não é apenas a Onda que brilha: cada uma das jogadoras do time dela (e até de outras escolas!) possui qualidades que se sobressaem e se tornam peças-chaves não só para as partidas, mas para o desenvolvimento da trama. Todas as colegas e rivais de Onda têm uma perspectiva diferente sobre o futebol. Algumas querem que todas joguem juntas para formar um super-time, outras querem sentir algo que só o esporte proporciona e outras apenas querem se divertir ao lado de suas companheiras e amigas. Essas motivações ora entram em conflito, ora se complementam e ajuda a fortalecer os laços de cada uma delas.

 

Quanto às partidas em si, apesar de serem mais pé no chão e mais realista do que grandes animes de futebol como Super Onze ou Super Campeões, elas são todas muito empolgantes, com desafios bem elaborados, especialmente as últimas que deixam todo mundo com os nervos a flor da pele, com resultados verdadeiramente imprevisíveis! Quando você se der conta, estará torcendo e vibrando por cada lance e jogada espetaculares que essas meninas fazem.

 

 

Apesar do tom sério que o anime repassa nas partes mais dramáticas e na sua proposta de falar sobre o futebol feminino, há espaço para momentos descontraídos das garotas, com um humor executado no timing certo. Somado a isso estão caretas legitimamente engraçadas. Isso tudo ajuda a aliviar a tensão e nos faz criar ainda mais simpatia com todas elas. Afinal de contas, são colegas que se divertem com o esporte, ou que adoram zoar com a cara da outra. Há personagens sérias que encaram com preocupação o futuro do futebol feminino, mas até elas possuem um momento de descontração.

 

 

Infelizmente a série em anime tem uma barriga no meio quando entra a problemática de conseguir um campo para o clube de futebol feminino poder jogar. Ainda que seja bom ver elas tentando solucionar essa questão, afinal ele evidencia a preferência pelo time de futebol masculino do que o feminino pela posse do campo da escola, e precisam ir atrás do mínimo para treinarem. O problema é que isso é levado de uma forma um tanto entediante, com direito a repetição de piadas que foram usadas no filme do First Touch e até deixa claro que alguns personagens secundários são bastante rasos.

 

Mesmo com essa questão no meio do anime, Farewell, My Dear Cramer é bastante feliz com sua proposta: ele mostra as dificuldades que as garotas que praticam futebol precisam enfrentar e que vão além de superar o time adversário: é o descaso e o desinteresse pelo público geral, com todas precisando correr atrás de ter onde jogar porque o campo da escola já está sendo reservado pelo time masculino, além do preconceito que as pessoas têm, achando que as garotas não jogam tão bem quantos os meninos. Com o filme do First Touch mostrando todo o esforço que uma jogadora incrível como a Onda precisa fazer para encarar o primeiro obstáculo em sua vida com o futebol, encaminhando para a série do anime que abre para uma problemática que impacta o plano mais geral do futebol feminino.

 

 

Ainda com essa premissa mais séria, o anime se permite ter um tom mais leve e divertido, especialmente quando focado nas garotas e nas suas conversas. Elas são engraçadas e legitimamente amam jogar futebol pelo que o esporte proporciona a elas.  A direção do anime se saiu muito bem em retratar esses momentos de descontração e que evidencia as personalidades distintas de cada uma delas e a decisão da série em anime dar atenção para tantas personagens, e não só focar na trajetória da Onda, foi bastante acertado.

 

Se me permite fazer um pequeno apelo, peço que quando chegaram ao último episódio, vejam-no até o final. Há uma cena após os créditos que é verdadeiramente emocionante. Vão por mim.

 

 


 

Se quiser saber um pouco mais sobre o futebol feminino e acompanhar a trajetória de Onda e das demais jogadoras, você pode assistir tanto ao filme Farewell, My Dear Cramer: First Touch como à série em anime de Farewell, My Dear Cramer aqui na Crunchyroll.pt, que estão disponíveis com legendas em português.

 

 

Sinopse:

 

No 7º ano do fundamental, Nozomi é a única jogadora do primeiro ano escalada para jogar na primeira partida oficial do ano no torneio masculino. No entanto, ela acaba se machucando por conta de jogadas de contato, e o técnico decide não usá-la mais em partidas oficiais para evitar lesões graves. Determinada a jogar de novo, ela treina com afinco e, ao lado da Echizen, bola planos para "convencer" o técnico.

 

 

© Naoshi Arakawa, KODANSHA/2021 "Movie Farewell, My Dear Cramer" Production Committee

© Naoshi Arakawa・Kodansha / Farewell, My Dear Cramer Production Committee

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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