RESENHA: The aquatope on the white sand: o que fazer depois que o sonho morre?

As jovens Kukuru e Fuuka passam por um momento complicado em suas vidas nesta série em anime lindíssima e comovente da P.A. Works

 

Em todos esses anos nesta indústria de animes e mangás, o que mais temos são obras que falam de sonhos e da luta para alcançá-los. Tivemos Naruto querendo se tornar um Hokage e mostrar ao mundo o seu estilo ninja, Luffy em sua busca pelo One Piece e se torar o Rei dos Piratas, animes de esporte sobre um protagonista que costuma ser alguém extremamente empolgado e quer conquistar um título ou até ser reconhecido mundialmente. O topo é o objetivo desses caras e para chegar lá eles irão passar por provações e alguns até por indecisões sobre suas escolhas de sonho. Mas geralmente, o que acontece é que eles chegam lá, ou quando não, eles continuam motivados a continuar tentando até conseguirem.

 

Esta premissa está marcada a ferro nessa indústria. Mesmo que sua obra não seja do gênero das citadas no parágrafo anterior, o que mais se tem são histórias em que o protagonista possui um objetivo claro e ele precisará trilhar seu caminho até chegar lá, superando obstáculos e realizando seu sonho. Isso está tão intrínseco que um dos três alicerces que constituíram as bases das histórias que a Shonen Jump buscou publicar era o alicerce da “Vitória”. Não me entendam mal: essa é uma premissa que funciona e rende histórias que empolgam e motivam pessoas por gerações. Todavia, é preciso ser realista algumas vezes e mostrar o lado que é pouco explorado, mas que muitos de nós já passamos por isso: e se o sonho acabar? E se, por diversos fatores alheios à nossa vontade, não vemos mais como continuar por esse caminho, mesmo após nos esforçarmos tanto? Como conseguir forças para seguir em frente? E para onde seguir? Este são alguns questionamentos que as jovens Kukuru e Fuuka precisam lidar em The aquatope on the white sand, um anime que mais do que falar das duas em um aquário numa cidade litorânea, é uma história sobre o fim de sonhos e da chegada de grandes mudanças.

 

Além do choque e da tristeza inicial, o sentimento que mais persiste com a morte de um sonho é o desamparo e o desnorteio. A pessoa fica remoendo constantemente o que deu de errado, percebe que não tem mais jeito, mas ela não sabe para onde ir, ou o que fazer daquele ponto em diante. É neste dilema que começa a história: Fuuka, uma jovem que sempre sonhou em seguir carreira de Idol, viu seu sonho ruir por não conseguir acompanhar o ritmo que essa vida exige e foi substituída do grupo que fazia parte. A princípio ela iria apenas voltar para casa e retornar aos estudos até decidir como tacar o barco dali em diante. Sem perspectiva nenhuma e querendo fugir de uma “festa para levantar o ânimo” preparada por sua mãe na sua cidade natal, ela decide de última hora viajar para Nanjo, uma cidade no interior de Okinawa, onde há o Aquário Gama Gama, que está sob os cuidados da jovem diretora interina Kukuru. Apesar de ser um local aconchegante e com uma boa variedade de animais vivendo ali, o aquário está em uma situação crítica e com previsão de fechar as portas por definitivo ao fim do mês de agosto. Kukuru é alguém que se dedica de corpo e alma a este aquário, o único lugar que ela possui memórias de seus falecidos pais e vai tentar de tudo para impedir que isso ocorra. É nesta situação que Fuuka pede para trabalhar lá naquele mês ajudando Kukuru e seus amigos a manter o aquário da melhor maneira que conseguem.

 

Aqui já temos um dilema interessante: Fuuka já teve seu sonho encerrado e simpatiza com a situação de Kukuru de não deixar o seu sonho (o de manter o aquário aberto) também morra e temos a própria Kukuru, que está vendo seu sonho de infância correndo o risco de acabar por fatores que vão além dela. Cada uma lida com a situação atual de maneira única, reforçada pelas personalidades de cada uma (Fuuka é mais assertiva e atenciosa, enquanto Kukuru é mais esquentada e quer resolver todos os problemas no aquário).

 

 

É assim que ficamos no primeiro cour:  com esta problemática e neste cenário: tanto a região de Nanjo como o Aquário Gama Gama são belíssimos. O estúdio P.A. Works é conhecido por caprichar na beleza de suas animações (o estúdio é o mesmo responsável por outros animes como Nagi-Asu: A Lull in the Sea e Shirobako), e a equipe de animação está de parabéns em retratar tanto a paisagem praiana como a vida marítima. Alie isso à um ótimo design de personagens, que também são igualmente bem desenhados e animados. Ainda que a questão principal da narrativa seja cheia de momentos pessimistas, dá para sentir uma verdadeira paz de espírito com a beleza estonteante e até indescritível presente em The aquatope on the white sand.

 

 

Além de Fuuka e Kukuru, o elenco de apoio é bastante diversificado e carismático. Kai é filho de pescadores e amigo de infância de infância da Kukuru que resolve ajudá-la no aquário por consideração a ela e por dispor de tempo a isso. Kuya é um introvertido que, por causa de uma situação traumática na época do seu passado, possui dificuldade em interagir com mulheres, mas que aprendeu a ter apreço pelos animais após interagir bastante com o avô de Kukuru, que é o diretor de fato do Aquário Gama Gama. Também tem o Umi-yan, um tiozão bem gente boa e fã de idols que identifica na hora quem a Fuuka era até pouco tempo atrás. Este são só alguns exemplos do núcleo principal, há muitos outros personagens em The aquatope on the white sand muito bem construídos e com uma história a ser contada.

 

Nesse primeiro momento ficamos focados nos esforços de Kukuru em não deixar que seu aquário seja fechado, e há um certo tom agridoce nisso tudo. Há momentos acolhedores e agradáveis, com os projetos que ela e seus amigos lutam tanto para realizar e agradar os visitantes do aquário, que resultam em situações alegres e memoráveis para todos. Ao mesmo tempo, vemos o clima de que tudo vai se encaminhando para seu fechamento. É melancólico, e junte isso à angústia de Kukuru que vê o seu sonho de manter o local que ela mais tem zelo ruindo.

 

“Tsukiumi no Yurikago”, o primeiro encerramento, é capaz de trazer serenidade ao coração de qualquer um.

 

Isso tudo seria esmagador para qualquer um aguentar, tanto para os personagens como para quem assiste, mas é nesse primeiro cour que vemos a importância de ter apoio das pessoas em momentos difíceis como esse. Os amigos de Kukuru e Fuuka não só ajudam ela nesses projetos e a manter o aquário enquanto ele está aberto, mas dão apoio e a ajudam a passar por todo esse processo que é o fim do seu sonho. Nesse momento, em que você percebe que seu sonho morreu, você estará só com seus pensamentos e ter entes queridos e amigos com quem conversar é crucial para pensarmos no que fazer a seguir. É um processo complicado, afinal, você não pensa na hora o que seria um próximo sonho quando você ainda está ruminando os destroços do seu sonho de vida e por vezes quer apenas ocupar a mente longe dali.

 

Acabei me focando na Kukuru, mas paralelamente a isso vemos também o conflito interno que Fuuka passa, visto que ela não está ali para ser um alicerce emocional para a Kukuru. O fato de ela ir trabalhar em um aquário, em um cargo completamente diferente do que fazia como Idol, se tornou uma experiência enriquecedora para ela. Há ainda certa indecisão dentro de si sobre que rumo deve tomar, tanto que surgirá uma oportunidade de ela voltar a sua vida anterior e Fuuka precisará fazer uma escolha importante ao final do primeiro cour.

 

 

Se, porventura, o anime de The aquatope on the white sand terminasse em seu primeiro cour, eu pessoalmente não reclamaria, pois ele trabalha bem a sua proposta inicial e, ainda que agridoce, entrega uma mensagem esperançosa sobre como lidar com momentos tão desesperadores e do sentimento de se sentir perdido. Porém o segundo cour mostra uma virada de página na vida de todos e, principalmente, uma continuidade às incertezas e dificuldades que Kukuru está passando e a descoberta de uma nova vocação para a Fuuka.

 

Iremos adentrar em detalhes do enredo do segundo cour, então inevitavelmente entraremos em SPOILERS do primeiro cour, não que seja surpresa de fato. Após o fechamento do Aquário Gama Gama, Kukuru e todos os seus funcionários acabam sendo contratados pelo recém-inaugurado Aquário Tingaara, um complexo muito maior e com uma estrutura igualmente impressionante. Os amigos de Kukuru acabam sendo designados mais ou menos nos cargos que já tinham experiência no Gama Gama, porém Kukuru acabou ficando no setor de marketing do aquário, precisando lidar com um chefe intransigente, além de todas as dificuldades por não saber praticamente nada da nova função.

 

 

O foco da segunda parte do anime não está tanto em lidar com o fim do sonho (apesar dessa temática retomar em seu clímax), mas sim nas dificuldades em se adaptar a um novo ambiente de trabalho, com novas pessoas e precisando reaprender todo o seu ritmo de trabalho. Em um primeiro momento, Kukuru se agarra a sua motivação primordial que é o seu apreço pela vida marítima e quer transpor isso no seu cargo atual, porém ela acaba atropelando e por vezes atrapalhando os afazeres de funcionários responsáveis por outros setores nesse aquário.

 

Além disso, há o conflito interno dela de querer voltar para o setor de cuidadora dos animais e não se encaixar com a função de marketing, onde ela passa boa parte do tempo em uma mesa de escritório, elaborando projetos de divulgação e contactando os demais setores para conferir a visibilidade desses projetos. Acaba ocorrendo muito murro em ponta de faca em uma primeira instância, com o agravante de haver contratempos inevitáveis no trabalho (quem nunca esqueceu de enviar os arquivos no anexo de um e-mail para uma gráfica?), além de atrito com os outros funcionários menos agradáveis.

 

Quem nunca?

 

Este é outra qualidade do anime em mostrar que não devemos julgar um livro pela capa: alguns personagens se mostram bem podres em um primeiro momento, porém eles também possuem suas lutas pessoais e acabam ganhando um pouco mais da simpatia das protagonistas e até mesmo nossa. Essa problemática é trabalhada com bastante cuidado e de maneira bem executada.

 

Algo que deixei para elogiar agora, mas que está presente desde os primeiros episódios: The aquatope on the white sand é um anime que acerta em cheio em retratar a vida marítima e a criar uma conscientização ambiental no espectador. Os animais são retratados até os mínimos detalhes. Ainda que em alguns momentos os peixes sejam recriados por modelos tridimensionais, isso não diminui o feito da série em recriar os ambientes aquáticos e seus comportamentos. Na segunda parte temos um destaque sobre o quanto essa vida marítima é impactada pela ação antrópica e os esforços de grupos de preservação em mantê-la e conscientizar a população. Não irei entrar em detalhes, mas no final do episódio 21 todos nós presenciamos um acontecimento que até hoje me falta palavras para descrever. É algo que me tocou profundamente no meu âmago e a forma como ela foi conduzida é merecedora de todos os elogios possíveis, além de ter sido um evento que mudou drasticamente a vida de uma das personagens.

 

 

Apesar de todas essas qualidades, eu possuo apenas uma crítica ao anime. Acredito que o primeiro episódio do segundo cour não deveria ter mostrado a sua abertura, pois ela acaba entregando uma grande revelação que ocorre ao final deste episódio.

 

The aquatope on the white sand foi um anime que me fisgou por vários motivos, alguns inclusive que foram listados aqui, mas outro que vai além da sua temática. No primeiro cour eu me identifiquei com a realidade do fechamento do Aquário Gama Gama. Ao longo da minha vida eu passei por estabelecimentos e locais que guardo ótimas lembranças até hoje, porém não tardou muito para que eventualmente eles fossem fechados e deixaram de existir. Se há algo de que sinto arrependimento foi de ter perdido a oportunidade de visitar pela última vez a casa da minha falecida avó antes de ela ser vendida. Era uma casa que fui com bastante frequência na minha infância e teve um dia que tive a chance de ir lá, mas decide não ir por estar com pressa para um agendamento. Hoje, carrego essa escolha comigo e isso é tudo o que posso fazer de agora em diante.

 

 

Algo que aprendemos com The aquatope on the white sand é que novas experiências são ótimas oportunidades para lhe fazer seguir em frente, pois elas podem eventualmente levarem a um novo começo em sua vida. Em nenhum momento, após os sonhos de Fuuka e Kukuru ruírem, ocorre uma mudança brusca em seus objetivos. Todo esse processo é lento e gradual, bastante doloroso, porém acolhedor em constatar o quanto amigos e entes queridos estão ali, dispostos a ajudar a lhe manter em pé e lhe apoiar, enquanto você descobre o que fazer dali para frente.

 

Ainda que um sonho acabe, o princípio que lhe impulsionou a seguir ele continua com você e lhe motivará a passar por dificuldades desses novos começos, dando um passo de cada vez nessa nova jornada que você está trilhando. Assim como há uma força incrível naqueles que superam desafios para realizar seus sonhos, também há uma força igualmente poderosa naqueles que se erguem da ruína de seus sonhos e continuam seguindo em frente, em busca de um novo caminho em suas vidas.

 

 


 

Veja como Kukuru e Fuuka lidam com as diversas dificuldades e o fim de seus sonhos com o anime de The aquatope on the white sand, disponível por completo aqui na Crunchyroll.pt, com legendas em português.

 

 

Sinopse:

 

Em um pequeno aquário localizado na ilha de Okinawa, trabalha Kukuru Misakino, uma jovem de 18 anos. Lá ela encontra Fuka Miyazawa, uma ex-idol que perdeu seu emprego em Tóquio e está desnorteada. Elas começam a passar os dias juntas no aquário, conhecendo melhor uma a outra, mesmo com a iminente crise financeira ameaçando fechar o estabelecimento. Em meio aos sonhos e à realidade, à solidão e à amizade, aos laços e aos conflitos, as duas amigas vão virar uma nova e brilhante página neste verão.

 

 

 


Samir “Twero” Fraiha é redator de notícias da Crunchyroll.pt. Formado em Letras e em Artes Visuais, curte animes, mangás e games desde os 5 anos e é fã dos jogos da CyberConnect2. É bem ativo no Twitter como @Twero e também gosta de gravar e editar podcasts.

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